Quando perguntada sobre sua pesquisa acadêmica, a protagonista de Hot Milk, a jovem antropóloga Sofia (Emma Mackey), diz que tem a ver com o eterno debate entre natureza e criação. Não estranhamente, o filme da diretora estreante Rebecca Lenkiewicz é exatamente sobre essa disputa de narrativas.
Roteirista de filmes como Ela Disse e Ida, a inglesa Lenkiewicz dirige seu primeiro longa partindo do romance homônimo (ainda inédito no Brasil) da também britânica Deborah Levy, que coloca ao centro Sofia e sua mãe, Rose (Fiona Shaw), que passam uma temporada numa pequena cidade costeira da Espanha, onde a mulher foi para tratar de uma misteriosa doença que a impede de andar.
A relação entre as duas é complexa e repleta de nuances, marcada pela tensão constante e abusos emocionais dos dois lados – embora, claramente, a mãe seja uma figura muito mais tóxica do que a filha. Em seu tratamento com o médico caríssimo, Dr. Gomes (Vincent Perez), ela precisa acessar memórias e traumas do passado, o que nem sempre a agrada, e leva à memória de uma irmã morta, chamada Mary.
Sofia, por sua vez, apesar de uma estudante de doutorado, ainda é inexperiente no mundo. Está se descobrindo, fazendo seus ritos de passagem, que se intensificam quando conhece Ingrid (Vicky Krieps), uma mulher rica e livre que também está na mesma cidade. E, conforme elas ficam mais próximas, Ingrid revela a Sofia seu trauma de infância, que pode ser, de certa forma, um espelhamento das feridas da própria Rose.
Sofia é, claramente, uma jovem que não consegue escolher seu próprio rumo – ou o comportamento da mãe, de forma sutil e subliminar, a impede de seguir seu caminho. Uma visita ao pai, Christos (Vangelis Mourikis), na Grécia, não a ajuda muito – pelo contrário.
Tomando caminhos cada vez mais surreais, Lenkiewicz nada num oceano de ambiguidades de que nem sempre ela consegue dar conta como uma, digamos, Lynne Ramsay seria capaz. A diretora, que também assina o roteiro, tem em sua carreira de roteirista personagens femininas muito bem resolvidas, heroínas complexas numa sociedade marcada pelo patriarcado sufocante. Aqui, as ideias talvez funcionem melhor do que a execução. Não é fácil traduzir em imagens a prosa onírica e interna de Levy, cujo romance o filme segue bem de perto. De qualquer forma, Sofia é a materialização do dilema ente natureza e criação, um tema que tanto a fascina.
