No filme da diretora estreante Agathe Riedinger, exibido em competição no Festival de Cannes 2024, é a atriz também iniciante Malou Khebizi quem dá total carne, sangue e credibilidade à sua protagonista, Liane, que justifica totalmente o título Diamante Bruto. Porque ela é simplesmente isso, uma explosão de revolta e energia ao procurar desesperadamente escapar da indiferença da mãe, da pobreza e da falta de perspectivas com o sonho de integrar um famoso reality show, Miracle Island.
Todo seu esforço e todo o dinheiro que ela consegue obter - nem sempre por meios honestos - são colocados à disposição deste projeto, o que leva Liane a procurar moldar seu corpo, com implantes nos seios, unhas pontudas e longuíssimas, extensões no cabelo e roupas que ela acredita compor o figurino indispensável para esta personagem que ela procura criar - e também para colocar nos vídeos que divulga nas redes sociais, na busca do engajamento de milhares de seguidores.
A artificialidade deste mundo que Liane persegue, em contraste total com o despojamento de sua casa e de sua vida emocional, são traduzidos perfeitamente na proposta do diretor de fotografia Noé Bach, explodindo em cores artificiais e estouradas, fabricando a ilusão que emoldura a vida de Liane. De real, pouca coisa, a não ser o afeto que ela nutre pela irmã menor, Alicia (Ashley Romano) - que caminha para tornar-se uma cópia dela, a partir das grossas sobrancelhas pintadas - e uma incerta atração por Nathan (Alexis Manenti), que compartilhou com ela a experiência de um lar adotivo no passado.
Verdade que há excessos e quebras da narrativa, a partir de um roteiro da própria diretora, que não nega fogo, no entanto, no poder de observação na escolha de um tema candente no mundo. A seu favor, a história não se rende a soluções mágicas e aposta nas escolhas de Liane.
