Os filmes portugueses que compõem Ovnis, Monstros e Utopias: Três Curtas Queer têm uma unidade formal muito particular, valendo-se de elementos do fantástico e da ficção científica para fazer retratos oníricos da temática LGBTQIAP+ de maneira muito delicada e inventiva.
Entre a Luz e o Nada, de Joana de Sousa; Sob Influência, de Ricardo Branco; e Uma Garota Imaterial, de André Godinho, dialogam com o cinema do conterrâneo João Pedro Rodrigues, nome mais conhecido internacionalmente do cinema queer lusitano. É como se, para os quatro cineastas, a subversão do realismo seja a maneira mais adequada de lidar com a temática, transitando entre o real e o imaginário para dar conta dos desafios e alegrias de uma vida que foge dos padrões heteronormativos.
Em Entre a Luz e o Nada, Shade (Shade de Sousa Graça) passa por uma viagem onírica, na busca entre o prazer e a identidade, numa jornada em que o impalpável se torna a regra. Já em Sob Influência, um grupo de amigos experimenta drogas alucinantes quando estão numa casa isolada. Novamente, o imaginário e o mundo se chocam, criando algo diferente difícil de nomear.
Uma Garota Imaterial, o mais longo dos três filmes, é, novamente, uma jornada de autodescoberta bastante inventiva e em sintonia com o presente. Tiago (João Duarte Costa) viaja com um homem que, aparentemente, é seu companheiro, mas eles discutem e o protagonista se perde na floresta, onde encontra uma garota chamada João - que é o que quiser ser, sem se importar com gênero, idade ou qualquer outra materialidade.
João é interpretado por uma série de pessoas diferentes, de diversos gêneros, que conferem a transformação da personagem ao seu próprio gosto. É uma sacada simples e muito eficiente do diretor, que constrói uma ode à busca pela identidade individual quando o mundo é marcado pelo pluralismo.
