Vencedora do Leão de Ouro em Veneza 2021 com um drama forte sobre aborto, O Acontecimento, a diretora francesa Audrey Diwan lança-se a um desafio com Emmanuelle, em que se propõe uma revisão profunda do erotismo feminino representado de forma polêmica pela personagem original do livro de Emmanuelle Arsan, que gerou uma série de filmes que deram o que falar, especialmente o original, de 1974.
A complexidade do desejo femininio é encarnada de maneira mais nuançada neste novo Emanuelle, estrelado pela magnética atriz Noémie Merlant. Executiva de sucesso, linda e desejada, ela leva uma vida sexual intensa e aparentemente transgressora, mas que não lhe traz satisfação - como fica claro desde a provocativa sequência inicial, a bordo de uma avião, que evoca o voyeurismo mas não esconde uma aparência mecânica neste jogo sexual, em que a protagonista termina com uma expressão sofrida no olhar.
Trabalhando no controle de qualidade de uma rede hoteleira de luxo, Emanuelle viaja para Hong Kong, onde deverá avaliar o trabalho da gerente Margot Parson (Naomi Watts, subaproveitada). O roteiro, assinado por Diwan e a diretora Rebecca Zlotowski (Grand Central, Os Filhos dos Outros), trabalha em dois eixos, na atmosfera luxuosa e aparentemente controlada do hotel de luxo e, num segundo plano, na intriga profissional que move o mundo profissional destas mulheres.
É visível que a diretora quer atualizar a personagem de Emmanuelle no sentido de colocá-la mais no comando das situações envolvendo seus próprios desejos. Ela tem liberdade para lançar-se a experiências ousadas, como o desconhecido a bordo do avião e um casal que conhece na recepção do hotel. Mas nada disso parece torná-la mais feliz. Por isso, entre outras coisas, ela se sente desafiada pelas provocações de outro homem que presenciou a cena no avião, Kei Shinohara (Will Sharpe) - que também se hospeda no mesmo hotel mas resiste a ser encontrado.
Esse e outros personagens no caminho, como a scort girl Zelda (Chacha Huang), têm seu papel a desempenhar neste percurso de Emanuelle rumo a um autoconhecimento que se mostra angustiado e doloroso. É possível empatizar com a sua procura e com sua dor, mas, ainda assim, o filme permanece um tanto frio, parecendo investir mais energia para retratar seus cenários de luxo, nos figurinos cuidados da belíssima protagonista, do que em seus relacionamentos humanos. Em outras palavras, há uma certa artificialidade permeando as situações que a diretora não consegue superar e que torna o filme, em alguns momentos, aparentado com outro clássico B do filme erótico, Nove e Meia Semanas de Amor (1986) - porque, como aquele filme, as sequências sexuais, algumas bem quentes, parecem clipes eróticos estranhamente publicitários.
