Não se pode esquecer, nem por um minuto, que o diretor por trás deste filme que discorre sobre a morte seja ninguém menos do que Constantin Costa-Gavras. O cineasta grego radicado na França na maior parte de sua vida, hoje com 92 anos, construiu nessa longa história uma carreira notável, repleta de alguns dos mais consistentes títulos do chamado cinema político, caso de Z (1969), Prêmio do Júri em Cannes e Oscar de filme estrangeiro, Estado de Sítio (1972), Seção Especial de Justiça (1975), Missing - Um Grande Mistério (1982), Muito Mais que um Crime (1990) e Amém (2003), para mencionar apenas alguns.
É justamente por ser uma pessoa com essa provecta idade e uma sempre firme conexão com os temas mais candentes da época em que vive que Costa-Gavras se interessou pelo diálogo entre um médico de cuidados paliativos, Claude Grande, e um filósofo já conhecido dos brasileiros, Régis Debray, registrado no livro Le Dernier Souffle. Esta é a base deste seu novo filme, cujo título brasileiro procura um acento poético, Uma Bela Vida, que resulta um pouco genérico, mas não destoa do espírito da história.
Criando um roteiro ficcional a partir do livro, Costa-Gavras transforma a dupla central no escritor e filósofo Fabrice Toussaint (Denis Podalydès) e no médico Augustin Masset (Kad Merad, deixando de lado sua aura de comediante), que forjam uma amizade inesperada a partir do momento em que o Fabrice experiencia um problema de saúde. Um exame de rotina identifica uma mancha entre seu fígado e seu pulmão, que a partir daí ele deve vigiar constantemente, colocando em foco sua própria mortalidade. A aproximação com um médico especializado de uma unidade de cuidados paliativos coloca-o em contato com uma série de histórias humanas cujo interesse seu faro de filósofo não pode ignorar.
Tendo o médico como seu guia nesse hospital, que não tem mais objetivo de cura, mas de humanização da última etapa da vida, Fabrice conhece uma notável gama de personagens, cada um com suas idiossincrasias, interpretados por um notável elenco de nomes famosos. Pertencem a essa galeria Sidonie (Charlotte Rampling), uma mulher que pede ajuda ao médico para não prolongar sua vida, a jovem Léa Carré (Agathe Bonitzer), inconformada com sua sorte tendo apenas 30 e poucos anos, a sra Broquet (Hiam Abbas), que luta contra aceitar a partida do marido, e particularmente Estrella (Angela Molina), que não deseja morrer dormindo e protagoniza, com sua família hispano-cigana, uma notável sequência musical inspirada em Jacques Prévert.
Do que o filme trata, afinal, tendo como centro o ponto de vista desse médico excepcional, é da humanização dessas pessoas em estágios terminais de doença, mas que encaram, cada uma a seu modo, sua situação. Assim, manifestam desejos e sonhos não raro inusitados e comoventes - como a sra. Le Bellec (Michèle Simmonet) e a sra. Léonie Françoise Lebrun), a mais filosófica destas pacientes.
É evidente que, ao abordar um tema espinhoso como este, Costa-Gavras não perdeu de vista um aspecto político que emerge da exposição dos mecanismos de hospitalização dos idosos, contra o que o dr. Masset se contrapõe de uma forma admiravelmente humanista e pessoal.
Ao alinhar todas estas histórias, retiradas do livro mas adaptadas às conveniências da ficção, Costa-Gavras manifesta uma fidelidade ao próprio estilo. Mesmo em seus filmes mais nitidamente políticos, ele sempre buscou fios condutores em personagens que nos carregassem para dentro das histórias em sua garupa, compartilhando seus medos e suas escolhas.
É verdade também que, ao enumerar tantos relatos diferentes, pode-se sentir um certo artificialismo aqui e ali, na ligação das situações e, eventualmente, até nesta amizade entre o médico e o filósofo - talvez porque a dimensão humana do filósofo nos escape mais aqui.
Pode ser também que estranhemos o cineasta nesta seara, que parece tão propícia ao melodrama, embora em momento algum ele se permita excessos de derramamento emocional. Histórias deste tipo podem não ter sido sempre o habitat natural de Costa-Gavras, mas concedamos-lhe, que o acompanhemos ou não, a liberdade de continuar explorando os caminhos da complexidade da existência humana numa carreira tão rica e gloriosa.
