03/07/2026
Drama

Entre Nós, o Amor

Nicole tem 52 anos, está desempregada e acaba de ter cassados no banco seu talão de cheques e o cartão de crédito, porque sua dívida passou de todos os limites. Ela comete vários erros para tentar proteger seu único filho, Serge, que entrou na faculdade, mas precisa de um pouco de apoio e racionalidade. É quando entra na equação Norah, a dona de um bar em frente à sua casa. Nos Cinemas.

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Jovem diretor de 38 anos, Morgan Simon coloca sua protagonista, Nicole, no limite de um longo processo de exasperação - e vivida, por isso, por ninguém menos do que Valeria Bruni-Tedeschi. Valeria é uma atriz especializada neste tipo de personagem, de mulher à beira de um ataque de nervos mas sempre mais próxima do desespero do que da fúria. Esta é a situação de Nicole, mãe solo desempregada, 52 anos, um filho na faculdade, Serge (Felix Lefebvre), que ela cerca de uma redoma de sonho em que, em última análise, ela cai prisioneira também.

Difícil imaginar alguém com menos senso de realidade do que esta mulher, que acaba de ter cassado no banco seu talão de cheques e o cartão de crédito, depois que sua dívida atingiu a astronômica quantia de 40.000 euros. Ela guarda a memória de tempos melhores, quando tinha uma casa com jardim, mas o cotidiano hoje é um pequeno apartamento num subúrbio desvalido e perigoso 

Ela procura emprego, mas os tempos estão bicudos - e sua idade e local de moradia, sofrendo de transporte público precário, jogam contra ela. Não há muitos rostos amigos à sua volta, exceto Norah (Lubna Azabal), a dona do bar em frente, capaz de decifrar pessoas e situações rapidamente.

O bar, aliás, é um pequeno mosaico da sociedade francesa,  onde, numa noite de réveillon, Nicole terá uma conversa elucidativa com dois jovens filhos de imigrantes, Amine (Dylan Guedj) e Yacouba (Gédéon Ekay). A situação permite conhecer um pouco mais o horizonte mental desta mulher simplória, que confessa ter um dia votado na candidata de extrema-direita Marine Le Pen, porque acreditava que no governo socialista de François Mitterrand é que havia perdido tudo. Essa sequência injeta uma pequena luz política num melodrama que, em linhas gerais, permanecerá intimista, limitado a esta relação sufocante entre mãe e filho. 

Norah é, desde sua entrada em cena, um elemento dissonante, uma afirmação de feminilidade bem mais forte e livre do que Nicole, esta sempre abraçada à sua culpa por seus erros e fracassos. É este novo amor por Norah, afinal, que abre uma brecha na vida de Nicole, liberando-a para experimentar coisas novas e finalmente poder sair do lugar.

Uma reviravolta em sua situação profissional também vem a calhar como outro comentário político na França de Emmanuel Macron, onde, apesar de sucessivas tentativas de ultraliberalização, continuam de pé algumas leis de proteção.

O título em português já aponta para a situação final do filme, enquanto o título original - La Vie Revée, ou A Vida Sonhada - traduz com mais clareza o espírito geral desta história e desta protagonista, dotada de tão pouco senso de realidade mas imbuída, sem dúvida, de um grande amor pelo filho. O diretor Morgan Simon deve entender uma coisa ou duas sobre isso, já que dedicou o filme à sua própria mãe.

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