O professor britânico Tom Michell (Steve Coogan) chega à Argentina no fatídico ano de 1976 - justamente nos dias da instalação do golpe militar. Para quem, como Michell, procurava um local sossegado e distante de seu próprio país, as perspectivas logo se mostram duvidosas.
A estadia do professor de inglês na Argentina, porém, estava destinada a proporcionar-lhe outras emoções inesperadas. Desfrutando de um feriado fora do calendário, devido à suspensão das aulas após o golpe, Michell e um colega, Tapio (Björn Gustafsson), o professor de Física sueco, viajam até Punta de Leste, no Uruguai. Planejando encontrar companhia feminina, Michell acaba salvando um pinguim na praia, inundada de um derramamento de óleo. Nem imaginava que o incidente seria tão transformador.
Incrível como é, a história é real e foi descrita nas memórias de Michell, adaptadas pelo roteirista Jeff Pope para o filme de Peter Cattaneo. Mais conhecido pela comédia Ou Tudo ou Nada (1997), o diretor é um especialista em mesclar tintas cômicas e melancólicas e o faz de novo, com bastante competência, nesta história singela mas não destituída de honestas e saborosas surpresas.
Batizado de Juan Salvador, o pinguim é contrabandeado do Uruguai à Argentina e sua existência escondida do diretor da escola, Tim Buckle (Jonathan Pryce) - o que é facilitado pelo fato de o professor, assim como seus colegas, dispor de um apartamento próprio dentro da escola e, logo mais, contar com a cumplicidade das funcionárias da limpeza, María Álvarez (Vivian El Jaber) e sua neta, Sofía (Alfonsina Carrocio).
A contenção na interpretação de Steve Coogan, um ator conhecido por papéis cômicos e dramáticos notáveis - caso de Philomena (2013) -, serve sob medida para retratar a aridez emocional que seu personagem experimenta, apesar da ironia britânica com que ele procura escondê-la. O pinguim será um instrumento essencial para quebrar o gelo deste coração traumatizado, tornando-se inclusive um instrumento para que ele se relacione melhor com os alunos adolescentes - outros cúmplices que ele conquista para a permanência clandestina do animal na escola.
Passando-se na Argentina ditatorial em seus primeiros dias, o filme também não se furta a inserir esse contexto incontornável na vida do professor. Apegando-se ao status de estrangeiro neutro no meio do turbilhão político, Michell é desafiado a sair da apatia quando Sofía é sequestrada diante de seus olhos pelas forças de segurança.
Certamente, ainda que tirando todo o proveito cômico possível das participações do pinguim, felizmente, um animal real e não CGI, Lições de Liberdade extrai profundidade da exposição dos crimes da ditadura argentina. Ainda que durando 7 anos, o regime foi capaz de deixar para trás o espantoso saldo de 30.000 desaparecidos. Apesar da dicotomia, o tom leve da presença do pinguim e a gravidade deste contexto político não se mostram contraditórios, sendo conduzidos em paralelo com equilíbrio. Da soma de ambas as influências é que Michell emergirá como uma pessoa diferente.
Uma atração à parte está nas imagens reais do pinguim, filmadas por Michell e mostradas nos créditos finais.
