Primeiro longa do diretor brasiliense Adriano Guimarães, o intrigante longa Nada instaura sua perplexidade inicial a partir deste nome anódino - que pode significar qualquer coisa ou coisa nenhuma. Este sentimento ambíguo é mantido ao longo de uma narrativa inquietante, que mergulha gradativamente no realismo fantástico a partir da volta de Ana (Bel Kowarick) à casa familiar, no interior, depois da doença da irmã, Tereza (Denise Stutz).
Ana é artista plástica e prepara uma exposição. Mas, depois de décadas afastada da família, acha que deve permanecer para cuidar de Tereza - que, obstinadamente, revela pouco apreço pelo próprio tratamento de um aneurisma, que pode estourar a qualquer momento.
A rotina do pequeno sítio, em que Tereza se dedica a tarefas como ordenhar a vaca leiteira e cozinhar, aos poucos vai tragando Ana a uma espécie de não-lugar - já que ali o sinal de celular é vacilante, obrigando-a a deslocar-se num longo trajeto no meio de um bosque para alcançar o único ponto em que consegue comunicar-se com as urgências que deixou para trás.
Numa localidade que parece fora do tempo, com poucos moradores, um sinal ostensivo de tecnologia invasiva se manifesta: a presença de uma imensa antena, no meio de um vale, cuja destinação nenhum dos moradores conhece. Não sabem também quem a instalou ali, nem com que finalidade. Entretanto, todos descrevem os efeitos da antena, que se observa em lâmpadas que resistem a se apagar e também no comportamento dos moradores - sobre cada um tendo uma atuação diferente.
A partir da decisão de Ana de filmar entrevistas com Tereza e outros moradores, conhece-se melhor as consequências atribuídas à antena, instaurando no filme um clima de realidade paralela, de tempo suspenso, de sobreposição de camadas temporais, em que a convivência entre vivos e mortos é tão natural quanto nos filmes de Apichatpong Weerasethakul. Ou seja, sem nenhum terror.
Aos poucos, Ana deixa para trás seu ceticismo e passa a compartilhar também de sensações próprias, convivendo com lembranças de um passado que o filme não se preocupa em explicar totalmente - como as razões de sua partida. È importante que o diretor, a partir do roteiro de Emanoel Aragão, mantenha o controle da instalação deste clima, que é sustentado ao longo do filme, de maneira a manter acesa a curiosidade do espectador, levando-o a compartilhar das emoções sutis dos personagens - tornadas mais nítidas a partir dos depoimentos colhidos por Ana e mostrados num peculiar preto-e-branco que evoca a memória, o subconsciente e também tudo aquilo que não se pode explicar.
