Comerciais de televisão são extremamente reveladores, pois, mostrando o que consumimos, explicitam, consequentemente, como vivemos. A dupla Radu Jude/Christian Ferencz-Flatz traz, em Eight Postcards from Utopia, uma avalanche de como eram e como viviam os romenos depois do comunismo a partir de uma colagem de cerca de 400 anúncios de tv.
Vemos um país encantado com a possibilidade do consumo desenfreado, da Coca-Cola ao pager, da água mineral a telessexo. De pequenas empresas, como a boate Why Not e os táxis do Perrozzi & Valentino a grandes corporações como Pepsi e Coca-Cola. Nada encontra limites num país no qual um enorme mercado se abre, e que acaba de descobrir as "inúmeras" ofertas de produtos e serviços - com direito a um anúncio sobre comprar cupons para participar do Programa de Privatização em Massa.
É óbvio que o público estava fascinado com a possibilidade de entrar no capitalismo tardio já em curso no mundo, no final dos anos de 1980, mesmo que o governo pós-Ceaușescu tenha optado pelas chamadas "reformas lentas". Isso não impediu que o país mergulhasse de cabeça no neoliberalismo, que desvalorizou o dinheiro do país com o câmbio livre. Em 1992, entrou em vigor um plano de austeridade, que liberava preços e congelava salários. O povo romeno viveu novamente na pele o aumento da pobreza, especialmente depois das eleições de 1996, nas quais o vencedor foi uma aliança de diversos partidos conhecida como Convenção Democrática - cuja política econômica envolvia reformas e fim de subsídios, aumentando a pobreza e o desemprego no país. Mas como o documentário dá conta de tudo isso?
É, clara, por exemplo a ocidentalização do modo de vida partindo de um consumo tresloucado. No filme, isso se materializa na forma de sua montagem, com os comerciais incessantemente sendo mostrados uns após os outros. É uma espécie de vomitório de uma forma de vida que não condiz nem com os padrões de hoje, que dirá com os da Romênia dos anos de 1990 - a publicidade no filme chega até os anos 2000.
São cenas de ideologia explícita, que se materializam numa estética, hoje, nostálgica de tempos mais inocentes. O malfadado Fim da História, anunciado pelo economista e filósofo nipo-estadunidense Francis Fukuyama, encontra substrato nesses comerciais que, ao seu modo, anunciam um novo tempo - um tempo utópico que não condizia com a realidade.
