Longa de estreia do produtor Guilherme Bacalhao, Pacto da Viola ambienta-se em Urucuia, interior de Minas Gerais, uma região de agronegócio e criação de gado. Ali vive Alex (Wellington Abreu, prêmio de melhor ator em Brasília 2024), um violeiro frustrado, que queria ter o talento de seu pai, Lázaro (Sérgio Vianna), mas não consegue engatar uma carreira. Sobrevive, assim, de empregos esporádicos nas fazendas da região, assim como a prima Joice (Gabriela Corrêa), uma jovem mais independente que sonha em sair dali.
No roteiro, assinado pelo diretor, Roberto Robalinho e Aurélio Aragão, há um flerte permanente com o filme de gênero, numa tentativa sutil de realismo mágico. Quando Alex volta para a casa do pai devido à doença deste, ele toma conhecimento dos rumores de que Lázaro teria, anos atrás, feito um pacto com o diabo, que lhe garantiu uma carreira de sucesso mas também estaria por trás do desaparecimento de sua mulher, mãe de Alex.
No filme, tenta-se jogar com a ambiguidade de Alex em optar pelo mesmo caminho sobrenatural, mas este é um rumo inseguro, conduzido sem tanta ênfase pelo diretor.
Na coletiva do filme, no Festival de Brasília 2024, Bacalhao explicou que o projeto começou em 2021 dentro de uma perspectiva documental, um tom que foi sendo deixado de lado ao longo do caminho. Houve diversas consultorias de roteiro, diversas versões, e também pesquisas, como um artigo de um antropólogo, que guiaram a narrativa a esta versão final.
O próprio esboço de crítica social, quando se retrata as condições precárias de trabalho nas fazendas, inclusive do ponto de vista de segurança sanitária - Joice trabalha com aplicação de agrotóxicos de uma maneira que ela mesma sabe que é perigosa - acabaram não sendo exploradas às últimas consequências. O diretor explicou que não se procurou retratar esse agronegócio que domina a região do sertão mineiro “como o mal”, ainda que admitindo ações negativas, como se apropriarem do rio local, fecharem porteiras e estabelecerem relações de trabalho muitas vezes exploratórias. Bacalhao comentou que procuraram manter essa idéia do mal que permeia o roteiro mais dentro do contexto da fé, já que as histórias de pactos com o diabo povoam o imaginário dos moradores da região e aparecem em muitas das conversas que mantiveram com eles - inclusive em relação à própria manifestação da tradicional Folia de Reis, que faz parte da história.
