03/07/2026
Drama

April

Nina é a única ginecologista mulher num hospital que atende uma região rural, onde os abusos sexuais são constantes e o aborto é proibido. Fazendo visitas domiciliares, ela tenta contornar a situação, ainda que correndo imensos riscos. Na Mubi.

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Um filme que chegou de fininho nos últimos dias de Festival de Veneza 2024 e arrebatou um merecido Prêmio do Júri foi o drama georgiano April, segundo longa da diretora Dea Kulumbegashvili, que já tanto havia impressionado em 2020 com sua premiada obra de estreia, Beginning.

Neste segundo longa, a diretora escala novamente a mesma atriz do primeiro, Ia Sukhitashvili, desta vez interpretando Nina, uma ginecologista dedicada a ajudar mulheres pobres numa região rural. A questão de gênero, envolvendo a onipresença de abusos sexuais e a necessidade de aborto - por ali, ilegal - estão no centro de um drama que aposta intensamente numa linguagem rigorosa, em termos da narrativa, da fotografia (do mesmo Arseni Khachaturan do primeiro longa), na montagem (de Mathieu Taponier), no ritmo dolorosamente controlado para entregar uma história que certamente tem repercussão universal.

Acentuando a questão de gênero, Nina é a única ginecologista mulher do hospital onde trabalha, um detalhe que também a torna alvo de discriminações e permite expor um machismo latente na mentalidade local. Além disso, ela é uma voz isolada na tentativa de suscitar empatia pelos dilemas das mulheres que ela tenta aliviar ou resolver, ainda que isto lhe acarrete grandes riscos pessoais. Por tudo isso, a dimensão ética ocupa um espaço considerável desta história contundente.

Há também um toque fantástico, envolvendo uma criatura algo monstruosa, cujo significado caberá a cada espectador especular. Há muitos signos, aliás, distribuídos ao longo do filme, que tem momentos verdadeiramente exasperantes, que desafiam a sensibilidade do espectador, mas nenhum deles gratuito.

É impressionante a segurança da jovem diretora para sustentar os climas com que se propõe a armar sua história, extraindo de cada detalhe um elemento de reforço, sem pretensão a embelezamento. Dea é capaz de criar uma poderosa estética de acumulação sem desmoronar seu epicentro, o que acentua a força dramática das histórias que quer contar.

 

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