Descrito por Arthur Conan Doyle como “o pior homem de Londres”, o luso-britânico Charles Augustus Howell foi um negociador de artes muito influente nos círculos da elite britânica. Era muito ligado a Dante Gabriel Rossetti e à sua companheira, Lizzie Siddal. Tudo isso serve de base para o longa do português Rodrigo Areias, que parte das informações disponíveis sobre essa figura e completa lacunas com uma imaginação vibrante e um humor particular.
Howell é interpretado por Albano Jerónimo, que o traduz nessa figura particular, o espírito de um tempo dos pré-rafaelistas e sua busca incessante pela arte pura, distante da herança renascentista e de padrões pré-estabelecidos. Filmado em Portugal, que se passa por uma Londres de forma convincente, o filme é falado majoritariamente em inglês e prima por sua fotografia (Jorge Quintela) e direção de arte (Ricardo Preto), que remetem a pintores como o próprio Rossetti, William Holman Hunt e John Everett Millais.
Areias é conhecido por seu cinema muito particular, que em O Pior Homem de Londres foge da sua zona de conforto e experimenta um tom mais soturno e planos mais acadêmicos. Isso, no entanto, não impede que cause estranhamentos na temporalidade de uma narrativa cadenciada, com roteiro assinado por Eduardo Brito.
Howell é uma figura complexa e nem sempre idônea, tanto que serviu de base para um vilão num conto de Sherlock Holmes. Vendendo láudano a artistas e afins, ele se embrenha no mundo da arte mais interessado nos lucros do que na estética, além de se envolver em tramas políticas, como um plano para assassinar Napoleão III, além de chantagens e falsificações.
Com um personagem assim, Areias encontra um terreno onde se move de formas particulares. Nem tudo funciona e a estrutura nem sempre é coesa. Ele trabalha melhor os eventos em si e não desenvolve uma narrativa bem amarrada. Mas, de qualquer forma, isso pode ir ao encontro da própria figura de Howell, um sujeito cuja vida foi marcada por episódios pouco confiáveis.
