18/07/2026

Tim e Milena são um casal de profissionais bem-sucedidos em Berlim. Tem um par de filhos, os gêmeos Frieda e Jon. Mas vivem um distanciamento enorme e disfuncional. A morte súbita da empregada leva à sua substituição por uma jovem imigrante síria, Farrah. Portadora de uma história trágica, ela parece ter também recursos novos para enfrentar dilemas emocionais - e também um misterioso objeto, emissor de uma forte luz. Na plataforma Reserva Imovision.

post-ex_7

Filme de abertura do Festival de Berlim 2025, A Luz, de Tom Tykwer divide opiniões, mas certamente todos podem concordar ao menos num ponto: é desconcertante. Por sua mistura de gêneros, do melodrama à fantasia passando pelo musical e pela velocidade com que muda de registro e de assunto. Nada que não tenha total semelhança com nosso mundo vertiginoso das redes digitais.

Certamente, Tykwer quer construir um comentário sobre este nosso tempo, cuja confusão é simbolizada por uma família alemã moderna, os Engels. O pai, Tim (Lars Eidinger), é publicitário, a mãe, Milena (Nicolette Krebitz), coordenadora de um projeto teatral num bairro pobre de Nairóbi, capital do Quênia. Têm filhos adolescentes, o par de gêmeos Frieda (Elke Biesendorfer) e Jon (Julius Gause). Cada um encerrado em seu mundo, evidenciando uma comunicação precária que não pode gerar nenhuma forma de empatia ou de afeto.

A morte da velha empregada, cujo cadáver permanece despercebido por muito tempo no chão da cozinha, deflagra uma mudança importante neste habitat. A nova empregada é Farrah (Tala al-Deen), uma imigrante síria, que coloca em foco dois problemas candentes, o da guerra em seu país e o da imigração na Alemanha.

Constituídos em torno de uma lógica urbana e supostamente progressista, cada um dos membros da família Engels sucumbirá ao misterioso encanto de Farrah. Para começar, sua empatia humana, capaz de dar escuta a cada um destes seres em intenso turbilhão emocional - especialmente los adolescentes. Jon passa seus dias trancado em seu quarto, imerso em competições de Realidade Virtual. Frieda, ao contrário, leva suas noites em festas com os amigos, envolvendo-se com bebida e drogas. Quando ela aparece grávida, a maneira quase fria como o problema é tratado - apenas pelo pai, pois com a mãe Frieda tem problemas - demonstra o quanto esta sociedade, supostamente progressista e moderna, está precisando de ajustes.

Farrah é o elemento estranho dentro desta lógica ocidental e também portadora de suas próprias e imensas dores em relação à sua própria família. O manejo de um misterioso equipamento luminoso - a luz do título - a torna também emissária de um outro tipo de mensagem, de uma busca de uma outra forma de realidade e envolvimento. Mágica? Espiritualidade? Tudo pode caber dentro de uma história que não se preocupa em ser rigorosamente realista, quebrando seus tons com seus números musicais nas ruas alemãs, duvidando dos posicionamentos supostamente politicamente corretos para escancarar uma pseudo-normalidade familiar que já se corroeu há muito tempo. Estas pessoas não sabem mais olhar umas para as outras, que dirá falar-se.

A estrangeira Farrah é o elemento  portador de uma nova sensibilidade, de um novo envolvimento, ainda que o mecanismo de que dispõe só possa funcionar em parte para ela. No segmento final, o filme embarca num realismo mágico que alinha essa aproximação entre as perdas de Farrah e sua necessidade de seguir em frente e os vínculos que os Engels podem formar. Tudo é incerto e A Luz não pretende ser um grande ensaio filosófico sobre a modernidade. Mas, como cinema, é um veículo inquietante, desafiador. 

post