A comédia italiana dirigida e protagonizada por Leonardo Pieraccioni, Faz de Conta que é Paris, pega carona na farsa e não dispensa um toque de fantasia para montar a estrutura de um pseudo road movie - como o título entrega de saída.
Como bem se poderia esperar, uma família está no centro dos acontecimentos. Mas está longe de ser aquela família das comédias dos anos 1950 e 1960, evidentemente. Por mais que aqueles filmes tenham feito o mundo amar o cinema italiano, o tempo passou e a disfuncionalidade assumiu novos tons, um bocado mais sombrios.
O clã central, os Cannistracci, são uma família bastante desunida. Há cinco anos, Ivana (Giulia Bevilacqua), Giovanna (Chiara Francini) e Bernardo (Leonardo Pieraccioni), não vêem o pai viúvo, o professor aposentado Arnaldo (Nino Frassica). Que, diga-se de passagem, é uma figura bastante desagradável. O reencontro com os filhos, depois de um grave problema de saúde de Arnaldo, esclarece a razão deste distanciamento: o professor foi sempre um pai bastante ausente e o afeto entre o clã se dissolveu depois da morte súbita da mãe.
Como toda comédia que se preza, a revelação a conta-gotas de segredos e escândalos de todos os envolvidos dará o tempero, especialmente a partir do projeto tresloucado dos três irmãos de, finalmente, realizar um sonho sempre adiado da família: uma viagem juntos a Paris.
Nesta altura, a tentativa de realização do projeto tem limitações, devido à saúde precária do patriarca. Se, por um lado, seu estado pode estimular a urgência da viagem, de outro, há riscos bastante sérios - até porque os filhos se responsabilizaram pela saúde do pai ao retirá-lo do hospital.
De todo modo, Ivana e Bernardo dão seguimento ao projeto, arrumando uma van toda equipada para a viagem. Giovanna resiste, mas embarca. Só que, ao longo do percurso, os irmãos se dão conta da impossibilidade do plano, substituindo a viagem real por uma fantasiosa. Arnaldo, que tem atualmente uma baixa visão, será cuidadosamente engambelado pelos filhos, que colocam a van circulando num trajeto reduzido para fazê-lo crer que estão no rumo de Paris.
Evidentemente, uma série de incidentes se somam neste caminho, colocando em risco a tramóia de boa vontade dos filhos - que, enquanto isso, trazem à tona histórias mais ou menos escabrosas do passado familiar. Do lado de fora, o trajeto circular desta van chama a atenção do vizinho maluco de Bernardo (Massimo Ceccherini) e sua mãe mais doida ainda (Gianna Giachetti), de policiais e também dos médicos que atendem Arnaldo, ansiosos pela falta de notícias do paciente.
Fantasiosa como seja, a história baseia-se em fatos reais, vividos pelos irmãos Michele e Gianni Bugli e seu pai, em 1982. Um enredo parecido, aliás, estava no centro de Veneza, filme de 2019 de Miguel Falabella, envolvendo uma viagem a Veneza de uma prostituta perto da morte (Carmem Maura).
Evidentemente, comédias não têm que ter lógica e muitas vezes extraem sua graça justamente dos absurdos. É o caso desta também. Mas não funciona tão bem a tentativa de criar uma certa empatia e até comover, na reta final, por conta do perfil um tanto raso dos personagens. E aí vai bater uma saudade de um Totò, um Alberto Sordi, um Marcello Mastroianni e de uma Sophia Loren…
