18/07/2026
Comédia Drama

Uma Batalha Após a Outra

Ativistas e revolucionários nos anos 1980, os membros do grupo French 75 se desmobilizam e entram na clandestinidade após múltiplas ações armadas. Entre eles, estão Bob e Willa, pai e filha, que estão na mira do coronel Steven J. Lockjaw, obcecado pela mãe da menina, que desapareceu. Anos depois, depois de muito esforço, o coronel acha a pista deles, obrigando-os a uma frenética fuga. Na Apple TV, Google Play, HBO Max e Prime Video.

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Paul Thomas Anderson é, talvez, o mais intelectual dos cineastas dos EUA hoje. E também, assim como o ator Leonardo DiCaprio, com quem trabalha aqui pela primeira vez, são daqueles artistas que não têm mais que provar nada a ninguém - a boa notícia é que usam isso para ousar, o que acontece no thriller de ação política Uma Batalha Após a Outra

Concretizando um projeto que persegue há mais de 15 anos, Anderson adapta, mais uma vez (a primeira foi em Vício Inerente, 2014), uma obra de Thomas Pynchon, no caso, Vineland, e o faz com total liberdade de reinventar situações e personagens, mantendo o espírito do livro, lançado em 1990. 

Esse tempo parece ter feito bem à história, que desembarca nas telas num momento muito apropriado para abordar autoritarismo, intolerância, radicalização, perseguição a imigrantes, Estado policial militarizado, cerceamento a protestos e participação política popular. Os EUA da história, afinal, parecem não ter mudado tanto desde que o livro foi escrito.

A sequência inicial já começa com adrenalina a mil. Um grupo militante revolucionário, French 75, prepara uma ação armada para libertar imigrantes de um centro de detenção na fronteira com o México. E Perfidia (Teyana Taylor), Pat (Leonardo DiCaprio), Deandra (Regina Hall), Junglepussy (Shayna MacHaile), Mae West (Alana Haim) e o resto do bando não estão para brincadeiras: trouxeram um caminhão com contêiner para levar a maioria dos prisioneiros e também armas e explosivos.

É uma ação espetacular e marca o primeiro encontro cara a cara entre os guerrilheiros e o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), um durão racista de alto coturno. Mas ninguém mais perspicaz do que Perfidia para identificar o ponto fraco desta supremacista branco com fortes problemas sexuais e uma inconfessável atração por mulheres negras - e a cena de dominação levada adiante por Perfidia com ele é uma das maiores ousadias de um filme que acelera a tensão em vários momentos. Afinal, um dos maiores embates de Anderson sempre foi contra o moralismo, como vimos em obras anteriores, como Boogie Nights - Prazer Sem Limites (1997). 

Fazendo jus a este nome peculiar, Perfidia é a personagem mais ambígua da história, em sua inesgotável energia sexual e política e sua impossibilidade de habitar um mundo rotineiro. Mãe de uma criança em seu relacionamento com Pat, ela deixa tudo para trás para continuar atuando em ações mais perigosas. Por conta de uma delas, Pat e a filhinha Charlene têm que sumir e adotar uma nova identidade.

Dezesseis anos depois, a menina virou Willa (Chase Infiniti), uma adolescente esperta, boa aluna e praticante de artes marciais com o mestre Sensei Sergio (Benicio del Toro). Nessa vida quase pacata, embora cercada de paranoia, Pat, agora chamado Bob, tornou-se um acomodado viciado e alcoólatra. Mas o coronel não esqueceu da turma, especialmente de Perfidia, e coloca todos os seus recursos para investigar o paradeiro dos revolucionários sumidos. Ao mesmo tempo, o militar negocia sua entrada num grupo supremacista branco, que adota o bizarro nome de Aventureiros Natalinos, o que é apenas um disfarce de suas missões sinistras.

Esse país dividido entre candidatos a revolucionários e supremacistas, ambos armados, repleto de comunidades imigrantes, salta aos olhos como um espelho dos EUA atuais, faltando só a figura de um presidente fanfarrão e adepto das fake news. É nesse ambiente que Anderson vai ambientar os confrontos entre esses dois lados, em que DiCaprio terá nas mãos um personagem com muitas camadas, inclusive cômicas, para desenvolver.

Há várias sequências eletrizantes de perseguição, retratando as fugas de Bob - a certa altura, ladeado por Sensei, um personagem à primeira vista secundário, mas que cresce à medida que é revelada sua própria militância clandestina de proteção a imigrantes. 

Willa, que cresceu à margem do passado revolucionário dos pais, também acaba tendo que descobrir os próprios instintos, especialmente a partir da obsessão do coronel em capturá-la. A novata Chase Infiniti agrada em cheio com sua peculiar mistura de ternura e garra para encarar esta personagem tão fundamental à trama e que protagoniza também uma trepidante jornada pela própria sobrevivência na segunda metade do filme.

Como sempre muito cuidadoso no apuro visual, Anderson opta pelo uso do Vista Vision na fotografia, uma espécie de widescreen de alta resolução do formato 35 mm que valoriza demais as sequências nas estradas e no deserto. A fotografia é de Michael Bauman, que trabalhou com Anderson em Trama Fantasma (2017) e Vício Inerente (2014). A soma de todos estes fatores resultam num filme em que a inteligência se encontra com o entretenimento e gera um grande cinema.

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