Ladrões, novo filme de Darren Aronofsky, traz, em suas primeiras imagens, as Torres Gêmeas, ou seja, nos dá duas informações importantes: a trama se passa antes de 2001 e em Nova York. E, para não deixar dúvidas, aparece na tela 1998. Mas, mais do que situar o longa no final dos anos de 1990, o diretor busca inspiração no cinema de ação daquele momento. E esse é um filme que poderia ter sido feito, naquela época, por Quentin Tarantino, Oliver Stone ou mesmo Guy Ritchie – ou qualquer outra pessoa, qualquer uma menos Aronofsky.
Deixando de lado os dramas pesados, com os quais ele lida com muita reverência e sede de Oscar, o diretor faz um filme de gênero que prima pela presença marcante de Austin Butler na tela como o protagonista Hank, um ex-futuro astro do beisebol que se mudou para Nova York, onde trabalha num bar e namora uma paramédica, Yvonne (Zoë Kravitz). Um acidente de carro, alguns anos atrás, acabou com os sonhos esportivos do rapaz e deixou um amigo morto.
Tudo ia muito bem, até que seu vizinho punk, Russ (Matt Smith), pede para Hank tomar conta do gato dele, enquanto viaja à Inglaterra para cuidar do pai que sofreu um enfarto. Pode ser verdade ou não, mas o passeio ao inferno feito pelo protagonista começa nesse momento quando dois sujeitos ultraviolentos batem na porta do vizinho, e acaba sobrando para Hank que, de tanto apanhar, perde um rim.
E isso é apenas o começo nessa trama marcada pela violência e um humor macabro. Entram em cena uma detetive de polícia (Regina King), um mafioso porto-riquenho (Bad Bunny) e uma dupla de irmãos judeus ultra-ortodoxos que também primam pela violência (Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio). Com essas peças, e trabalhando com o um roteiro de Charlie Huston, a partir de seu próprio romance, Aronofsky orquestra uma sinfonia marcada pelo sangue e traições.
Trabalhando com o diretor de fotografia Matthew Libatique, seu parceiro costumaz, o cineasta mira numa Nova York do passado, em cores fortes e estouradas que olha no cinema de Martin Scorsese para fazer uma espécie de Depois de Horas mais violento – a presença de Griffin Dunne, como patrão de Hank, pode ser um indício disso.
A presença de Butler é o que traz um pouco de gravidade ao filme, num personagem que é um homem comum pego numa rede de violência e ganância em busca de seja-lá-o-que-for que o punk está escondendo – mas tem muita gente interessada nisso. Ninguém sai ileso disso – nem o pobre gato. O passado de possíveis glórias de Hank ficou para trás no momento em que destruiu seu joelho – um trauma que o persgue mais que a morte do amigo no mesmo acidente.
Butler é o corpo e a alma do filme. Não há personagem ou interpretação, aqui, que rivalize com sua presença. Se Elvis deu sinal do nascimento de um astro, Ladrões confirma seu potencial não apenas como estrela de cinema, mas, também, como ator, num personagem complexo que facilmente perderia suas nuances em mãos menos habilidosas. Já Aronofsky, faz seu melhor filme em muitos anos.
