Exceto pelo cenário de Recife, que entra em foco de tempos em tempos, há pouco de Brasil propriamente dito em Dormir de Olhos Abertos, dirigido pela cineasta alemã Nele Wohlatz - em que se ouve mais chinês e espanhol do que propriamente português. Este detalhe, que pode produzir estranhamento, na verdade faz parte de um sentimento de que o filme se apropria, o desenraizamento que une os chineses Fu Ang, Kai e Xiaoxin, todos atores não-profissionais.
Estes imigrantes chineses estão no Recife como poderiam estar em qualquer lugar do mundo, em busca de trabalho, vivendo num mundo clandestino e paralelo, num trabalho de comércio que os isola na própria comunidade - e do qual eles repentinamente partem, como se observa numa fala.
O argentino radicado na França Nahuel Pérez Biscayart (120 Batimentos por Minuto) faz uma breve participação neste ambiente, como um imigrante também em busca da própria sorte - e falando chinês quase todo o tempo.
O que está em jogo aqui é mais o sentimento de busca destes personagens, envolvidos em laços fugazes, quase invisíveis nestes lugares por onde passam e nos quais não se enraízam, são seres eternamente de passagem. O filme sintoniza num sentimento atual, de que é difícil ter identidade, pátria, em tempos tão fragmentados, em todos os sentidos.
O filme venceu o prêmio da Fipresci (Federação dos Críticos) da seção Encontros do Festival de Berlim 2024 e foi produzido pela dupla Émilie Lescaux e Kléber Mendonça Filho.
