Um Luca Marinelli irreconhecível, careca, 20 kg mais gordo, a fisionomia de galã coberta por espessa maquiagem dá corpo a Benito Mussolini nesta minissérie de oito capítulos, Mussolini, O Filho do Século, que foi um dos grandes momentos do Festival de Veneza 2024, ali exibida integralmente.
Falada em italiano e protagonizado por elenco idem, a série é dirigida pelo diretor e produtor inglês Joe Wright, que já havia demonstrado solidamente sua boa mão para produções de época, como os longas Orgulho e Preconceito (2005), Desejo e Reparação (2007) e O Destino de uma Nação (2017). O toque do diretor está em capturar e energia da história original, cujo ponto de partida é a biografia homônima de Antonio Scuratti, adaptada num roteiro de Stefano Bises e Davide Serino, e que procura a sintonia entre o personagem do passado recente e as platéias atuais.
Isto é feito a partir de recursos como demolir a chamada “quarta parede”, colocando-se Mussolini falando diretamente com o público, olhos nos olhos, chamando-o para uma familiaridade que busca induzir à cumplicidade - o que foi a receita da ascensão e queda deste jornalista socialista modesto transformado em ditador fascista e divisor de águas incontornável da história italiana.
Wright recorre a uma fotografia sombria, assinada por Seamus McGarvey, seu parceiro em Desejo e Reparação e também em Anna Karenina, e também a uma montagem frenética, da autoria de Valerio Bonelli, para instituir o clima da história, que se desenvolve numa imensa vertigem - como aconteceu à Itália quando sucumbiu ao fascínio sinistro de Mussolini. Uma vertigem embalada pela trilha sonora pop de Tom Rowlands, da dupla The Chemical Brothers.
Através desse Luca Marinelli verdadeiramente possuído, o personagem nos fala como um fantasma do além, compartilhando seus pensamentos, planos e ações, cujo resultado podemos conhecer, mas cuja total compreensão ainda nos desafia, tantos anos depois, particularmente diante do renascimento do fascismo em tantos lugares do mundo, não só na Itália. Dissecar esse carisma mortal mergulhando na eficácia de suas técnicas de comunicação e no exercício continuado de sua indissociável violência é o caminho tentado nestes oito episódios para procurar resolver este enigma.
