Uma combinação de A Noite dos Desesperados (substituindo a dança por uma caminhada) e Jogos Vorazes (com o qual compartilha o diretor), A Longa Marcha: Caminhe ou Morra é um filme que tenta, forçadamente demais, conectar com o presente, em especial o dos EUA. Mas sua falta de senso e seu excesso de choques e escatologias transformam sua ambição em algo, no mínimo, reacionário.
Dirigido por Francis Lawrence, com roteiro de JT Mollner (diretor e roteirista de Desconhecidos), o filme parte de um romance de Stephen King, publicado 1979, sob o pseudônimo de Richard Bachman. A história passa-se numa versão distópica dos EUA, onde, de tempos em tempos, jovens do gênero masculino se voluntariam para uma longa caminhada na qual quem não mantém a velocidade estipulada, sai da pista ou para, entre outras coisas, recebe uma advertência. Três delas significam a expulsão da competição – essa expulsão, no entanto, implica um tiro na nuca. O vencedor ganha uma fortuna incontável.
O primeiro personagem que vemos chegar no ponto de partida é Ray, interpretado por Cooper Hoffman, que, a cada filme, se mostra uma presença segura em tela, levando a crer que, no futuro, poderá chega ao mesmo patamar que seu pai, Philip Seymour Hoffman. Ele é levado por sua mãe (Judy Greer), que não se conforma com a escolha do filho. Depois de uma despedida emotiva, ele se aproxima dos colegas/concorrentes. Embora exista um bom número de rapazes, o filme irá se ater a uma meia-dúzia, destacando Peter (David Jonsson), de quem Ray logo se torna amigo. Ele são sempre acompanhados por militares liderados por um major (Mark Hamill).
Adaptar King não é uma tarefa simples, já que sua prosa é floreada e barroca, nem sempre se valendo de nuances. E Lawrence cai em todas as armadilhas, da sanguinolência excessiva para chocar aos discursos laudatórios sobre a importância do amor, companheirismo e família. Os personagens são configurados mais para despertar sentimentos no público do que figuras humanas e complexas. Como não sentir pena do rapaz que leva um tiro na cabeça por ter câimbras? Seus arcos dramáticos, que sempre culminam com um tiro, são inexistentes.
Obviamente, o filme tenta pesadamente lidar com seu subtexto político, mas essa não é a seara de Lawrence. Os rapazes caminham por rodovias espalhadas pelo país que, vemos, foi destruído na guerra civil. A competição, como diz o major, serve como uma inspiração para o público, uma mostra de como os mais resistentes são vencedores. Ao revitalizar o discurso da meritocracia, o filme mais se alinha aos tempos presentes do que é a crítica que o diretor esperava fazer.
