Ruth (Kathleen Chalfant) está na cozinha de sua casa, e prepara um lanche para um homem, mais jovem do que ela. Ele é arquiteto, o que a deixa ainda mais interessada. Depois, ele a leva para um passeio e, chegando ao lobby do hotel, ele faz o check-in, enquanto ela aguarda sentada. Logo vem a sua companhia, Vanessa (Carolyn Michelle), que irá cuidar dela durante sua estadia. Nesse momento, o faz-de-conta de Toque Familiar, filme de estreia de Sarah Friedland, se desmancha.
Ruth é uma octogenária cuja mente começa a se transformar. Ela esquece fatos grandes e pequenos. O arquiteto com quem conversava, na verdade, é seu filho (H. Jon Benjamin). A internação, no entanto, não é um ato compulsório dele. Foi ela mesma quem escolheu essa casa de idosos, onde será cuidada por especialistas e conviverá com outras pessoas de sua idade. Mas não se lembra disso, e desafia o médico (Andy McQueen) quando este lhe diz que está perdendo sua memória. Ela recita de cabeça a receita de uma sofisticada sopa borsch, repleta de instruções detalhadas. “Uma pessoa que sabe isso está perdendo a memória?”, pergunta a ele.
Friedland, que também assina o roteiro, faz de seu filme uma delicada observação sobre quando a identidade individual começa a se esfacelar para que a mente caia num vácuo do tempo marcado por dúvidas e confusões. Ruth, como ela mesma diz, não é uma chef, mas uma cozinheira e, como tal, assume a cozinha da nova casa como se fosse o antigo restaurante onde trabalhava. Os funcionários entram em sua fantasia, e tudo parece seguir de forma tranquila.
Feito em colaboração com funcionários e pacientes da Villa Gardens, uma casa de repouso como a do filme, em Pasadena, na Califórnia, o filme tem um olhar, ao mesmo tempo, respeitoso e curioso. Friedland não ri dos personagens – de suas confusões mentais – mas, eventualmente, ri com eles de forma delicada e sincera, como é o seu filme.
Chalfant, uma grande atriz de teatro que eventualmente faz cinema (como tem Tempo, de M. N. Shyamalan), é uma presença marcante em cena, em sua construção dessa personagem repleta de nuances e complexidade. Em mãos menos habilidosas, a piedade poderia pesar como fator – outra armadilha da qual o filme escapa – , e transformar Ruth numa espécie de mártir de uma causa. Mas como Anthony Hopkins em Meu Pai, ela transforma a jornada de sua personagem numa de (re)descoberta de sua própria identidade, e cada “novidade” é sorrir para algo que foi perdido e novamente reconquistado.
