Na modernidade, poucos representaram em sua arte tão bem o ideário do caubói solitário quanto o escritor, dramaturgo, ator e roteirista Sam Shepard. Porém, não adianta ler sua coletânea Crônicas de Motel em busca de Paris, Texas. O livro é uma espécie de irmão espiritual do filme, que parte dele, mas as afinidades estão bem mais no campo formal e temático do que na construção da narrativa.
Cronista dos EUA desolados, Shepard encontrou no alemão Wim Wenders (com quem trabalhou outras vezes) um dos melhores tradutores de sua prosa em imagens. Paris, Texas, possivelmente o ponto mais alto da carreira do cineasta alemão, é uma ode à solidão dos caubóis consumidos pela culpa num mundo desamparado. Embora o filme não seja exatamente um western, o protagonista é uma espécie de caubói simbólico de uma subjetividade cindida numa sociedade marcada por excessos – excessos de mercadorias, de imagens, de pessoas, de sentimentos.
Wenders trabalha a partir do ponto de vista do isolamento do protagonista, Travis Henderson (Harry Dean Stanton), um andarilho pelos EUA profundos que renegou tudo e todos. Seu irmão, Walt (Dean Stockwell), não tem notícias dele e, com sua mulher, Anne (Aurore Clément), cria o sobrinho pequeno, Hunter (Hunter Carson), como se fosse filho deles.
Um incidente faz com que Walt retome o contato com Travis, e o leve até sua casa, onde está Hunter. Mas nada se sabe de Jane (Nastassja Kinski), mãe do garoto e muitos anos mais nova do que Travis. Duas famílias alienadas em busca de sentido para suas vidas tendo em comum laços de sangue, mas também as forças que os afastam.
Trabalhando com o diretor de fotografia Robby Müller (Ondas do Destino), Wenders busca um enquadramento que torna o ser humano minúsculo diante das paisagens solitárias. Ao mesmo tempo, os grandes outdoors – Walt tem uma empresa que faz esse tipo de propaganda – dão conta de que tudo se tornou uma mercadoria. As conexões humanas são substituídas por negociações comerciais. Uma série de sapatos enfileirados numa mureta dizem muito sobre isso.
Jane, quando, finalmente, é encontrada, trabalha num lugar onde, atrás de um vidro, se despe para homens que pagam para vê-la. Como tudo no filme, isso é de uma melancolia gigantesca. Kinski, no momento mais iluminado de sua carreira, é a própria imagem da fragilidade, usando um vestido angorá cor-de-rosa que transmite toda a vulnerabilidade da personagem a quem o famoso sonho americano traiu.
Shepard se interessa, em boa parte de sua produção literária e dramatúrgica, pelo fracasso da contracultura dos anos de 1960. Os caras descolados, cujo movimento acabou cooptado pelo capitalismo, se lançaram iludidos para o coração dos EUA. O próprio título do filme, como se descobre a certa altura, é a materialização dessa desilusão.
Mesmo sendo estrangeiro, Wenders, vale ressaltar, foi capaz de captar isso com destreza e transformar em imagens e sons (a trilha sonora de Ry Cooder é inesquecível) os EUA da crise financeira que espelhou a moral e emocional dos anos de 1980. Crise essa, aliás, advinda da ascensão do neoliberalismo, e que perdura até hoje. Quarenta anos depois de ganhar a Palma de Ouro, Paris, Texas não envelheceu um dia.
