03/07/2026
Drama

Bicho Monstro

A pequena Ana fica impressionada após ouvir relatos sobre uma criatura mítica numa peça de teatro. Quando uma vaca morre no seu vilarejo, ela desconfia de que o animal tenha sido assassinado por esse ser. No passado, um botânico alemão esteve na mesma região em busca do tal animal.

post-ex_7

As delicadas descobertas e os pequenos traumas da infância marcam a narrativa de Bicho Monstro, longa de Germano de Oliveira, experiente montador que estreia na direção. O filme começa com a pequena Ana (Kamilly Wagner) assistindo a uma peça de teatro, em seu vilarejo no interior do Rio Grande do Sul. Mas quando acaba a luz, a história fica inacabada e, em sua mente, a criatura descrita no espetáculo se torna algo mais assustador do que deveria. 

O roteiro, assinado pelo diretor, Igor Verde e Marcela Ilha Bordin, narra boa parte da história pelo ponto de vista de Ana. É sempre interessante e proveitoso colocar uma criança como o focalizador de uma história pois, a partir dela, a ambiguidade pode ganhar força. Crianças, na ficção e na vida real, veem mais do que são capazes de compreender, e isso faz parte do processo de amadurecimento. 

Vivendo num vilarejo de colonização e tradição alemã (alguns diálogos são nessa língua), Ana tem uma imaginação fértil que permite imaginar o que seria a tal criatura, conhecida como Thiltapes, um animal perigoso de forma complexa que ninguém conhece ao certo, e vive na mata.

Aí o filme se abre numa outra narrativa. Dois século antes, um botânico alemão (Pascal Berten) que pesquisa na região fica sabendo da criatura, que também desperta sua curiosidade. Simbolicamente, o Thiltapes se torna uma espécie de bode expiatório para os dois personagens: para o europeu, pode ser a expiação de demônios do passado; para a menina, a explicação da morte de uma vaca premiada, que ela desconfia ter sido morta por seu pai (Décio Worst). É para Bertha, personagem da grande atriz gaúcha Araci Esteves, que Ana faz suas confissões infantis, marcadas pelas dúvidas. 

Oliveira consegue, de forma bem competente, colocar o olhar da sua câmera ao par com o da jovem protagonista, colocando o filme lado-a-lado com ela, em suas descobertas, valendo-se do realismo fantástico como uma ferramenta quando o realismo em si já não é capaz de dar conta da realidade. Uma estreia bastante promissora do diretor e da atriz. 

post