Um rico material de arquivo e entrevistas povoam este documentário do diretor suíço Georges Gachot, revelando a vida e a personalidade de um dos maiores pianistas do jazz internacional, o norte-americano Erroll Garner (1921-1977).
Nascido em Pittsburgh, numa família modesta, Garner revelou precocemente um extraordinário talento musical. Ele mesmo conta, numa entrevista, não ter tido mais do que três aulas de música - todas no mesmo dia, quando a professora, depois de ele ter tocado de ouvido as músicas que ela tocou após tê-las escutado uma única vez, devolveu o dinheiro da aula à sua mãe.
Essa postura ao mesmo tempo espontânea e apaixonada diante da música percorreu toda a sua vida, quando se tornou não só o “pianista de 40 dedos”, como o descreveu um crítico francês, como o compositor de clássicos como Misty, Where or When e Pastel.
Esse talento natural, traduzido numa forma entusiasmada de tocar, cativou platéias ao redor do mundo, garantindo-lhe uma carreira que se estendeu por décadas, até a morte precoce, em 1977.
Nas entrevistas dadas por ele a inúmeras emissoras de TV, e também nos depoimentos de amigos como o baixista Ernest McCarty e seu biógrafo, Jim Doran, emerge uma personalidade alegre e gregária. Mas, curiosamente, sem relacionamentos pessoais estáveis. A música era sua vida. Ele nem mesmo ligava para dinheiro. Morava num pequeno apartamento, em Los Angeles, e dizia que só queria comer e dormir bem - o resto, não lhe importava.
Este desprendimento pode ter dado origem a um aspecto duvidoso, que o filme toca en passant. Sua empresária, Martha Glaser, responsável, sem dúvida, por parte considerável do êxito da carreira do músico, ficou com os direitos de sua obra - e não a única filha de Garner, Kim, fruto de um relacionamento tardio dele.
