18/07/2026
Suspense Ação Drama

Luta de Classes

David King é um bem-sucedido empresário da indústria musical. No momento em que se prepara para uma operação financeira arriscada, a fim de readquirir o controle da gravadora que fundou, seu filho é sequestrado. Mas logo se constata que foi levado por engano o filho de seu motorista, seu braço-direito. O sequestrador pede uma soma milionária, que praticamente arruinaria o empresário - que agora tem um dilema nas mãos. Na Apple TV.

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Spike Lee parte para uma nova refilmagem de um clássico oriental, no caso, Céu e Inferno, de Akira Kurosawa (1963). E o faz esplendidamente, com grande maestria na direção de uma história que preserva o núcleo do dilema ético do original, atualizando o enredo para a era contemporânea em que as redes sociais desempenham um papel excruciante. 

A trilha musical é um ponto alto do filme, começando pela abertura, que mostra uma visão aérea espetacular de Nova York, embalada pela canção Oh, What a Beautiful Morning, clássico da dupla Rodgers & Hammerstein. Tudo isso para apresentar o protagonista, o executivo da indústria musical David King (Denzel Washington), falando ao telefone do terraço de seu esplêndido apartamento, cujas janelas espelhadas refletem a cidade, identificando-o como o dono daquele mundo.

Este homem ambicioso, movido a desafios, parece ter tudo. King é um vencedor, dono da gravadora Stackin’ Hits, considerado um dos melhores ouvidos da indústria fonográfica. Mas este não é o seu auge. Há mais de duas décadas no páreo, ele já teve que vender parte das ações de sua empresa a dois sócios e sonha em retomar esse controle - uma jogada arriscada, para a qual ele já encontrou parceiros.

Movido pela adrenalina destes desafios, ele está eufórico. Mas tem um choque ao receber um telefonema, avisando que seu único filho, Trey (Aubrey Joseph), foi sequestrado. Não demora muito e a polícia localiza Trey. Mas seu melhor amigo, Kyle (Elijah Wright), filho do motorista e braço direito de King, Paul Christopher (Jeffrey Wright), foi levado por engano pelo sequestrador. 

Arma-se aí o mesmo conflito ético do filme de Kurosawa: mesmo Kyle não sendo seu filho, David deve pagar o milionário resgate, cuja soma é quase tudo aquilo que possui? No desenvolvimento da situação, abre-se a oportunidade para que Denzel Washington explore todo um lado sombrio na personalidade de King, alguém ambicioso e complexo mas não destituído de sentimentos. 

As redes sociais atuam no sentido de criar rapidamente suspeitas e julgamentos apressados: teria Trey contribuído para que o amigo fosse raptado em seu lugar? E se King não pagar o resgate e Kyle for morto, o que será de sua reputação? A polícia, por sua vez, suspeita do motorista Christopher, que tem uma ficha policial. 

Lee é extremamente hábil na criação desta atmosfera tensa, de desconfiança e conflitos, com a própria mulher de King, Pam (Ilfenesh Hadera), funcionando como uma espécie de consciência paralela. O diretor mostra toda sua competência também na condução das eletrizantes cenas de perseguição, quando King entra no metrô para entrega do resgate ao sequestrador, acompanhado por policiais dentro do vagão e também em automóveis nas redondezas, quando se realiza uma movimentada parada musical portorriquenha.

O terceiro capítulo gira em torno do sequestrador (Asap Rocky a.ka.a. Rakim Mayers), que abre todo um capítulo em torno da obsessão pela fama e o manejo das redes sociais - além de um novo confronto eletrizante no cenário de um estúdio de gravação. O roteiro de Alan Fox é preciso, complexo e abre portas para a discussão de inúmeras questões modernas, sem nenhum maniqueísmo. Spike Lee entrega aqui o seu melhor. 

 

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