Não é de se surpreender que o romance Enterre Seus Mortos, de Ana Paula Maia, tenha despertado o interesse do cineasta Marco Dutra para o adaptar – embora seu filme seja em diferente do original, mantendo apenas poucos elementos e nomes de personagens, e, de resto, tudo é diferente. Mas a atmosfera de horror constante casa bem com o cinema do diretor de Quando Eu Era Vivo.
Ao contrário da composição do romance, muito bem construído, o longa roteirizado por Dutra é uma confusão de intenções e caminhos narrativos que nunca se completam, nunca convencem direito, apoiando-se mais na bizarrice das situações do que numa dramaturgia sólida e direção segura.
Selton Mello se coloca numa posição caricata, algo que nunca se encontra direito com o filme, no papel de Edgar Wilson, cujo trabalho é recolher animais mortos na estrada da fictícia Abalurdes. Ao lado dele, um padre excomungado, Tomás (o excelente Danilo Grangheia), e na base do comando, Nete (Marjorie Estiano), com quem o protagonista tem um caso.
O cenário apocalíptico se arma ao redor dessas figuras e se intensifica com a aparição de uma seita e a espera pelo fim do mundo. Tudo é muito ao gosto do diretor, mas nem tudo funciona na orquestração de horror, ficção científica e drama. Os personagens não encontram sua razão de existir dentro do filme. Marjorie Estiano, por exemplo, vive uma figura totalmente descartável e acaba desperdiçada aqui, assim como Betty Faria, no papel da tia Helena.
Como tem acontecido com muitos filmes de Dutra, ele parece estar apaixonado demais em causar estranhamentos, sem trazer a esses elementos consequências narrativas ou, o que seria ainda melhor, pontos de interpretação que permitam compreender o que o filme está tentando figurar sobre o presente. Não há dúvidas de que vivemos fins dos tempos e o fanatismo religioso é uma das causas disso, e, também, se aproveita disso para enriquecer, mas creditar tanta reflexão a Enterre Seus Mortos é dar mais do que o filme merece.
