Em iguais partes fofo e hiperativo, Totto-Chan: A Menina na Janela, de Shinnosuke Yakuwa, é mais um exemplar da excelência da animação nipônica, que parte do livro infanto-juvenil autobiográfico de Tetsuko Kuroyanagi, uma atriz, personalidade pública e Embaixadora da UNICEF no Japão. Aos 92 anos, é uma figura querida em seu país, também conhecida por seus trabalhos de caridade.
Na década de 1930, a menina Totto-Chan é a própria Tetsuko em sua infância, com problemas para se adaptar à escola. Repleta de criatividade e sem limites, a pequena protagonista esbarra na opressão do ensino tradicional, o que a leva à escola do Sr. Kobayashi, onde ela espera poder se expressar com toda a sua intensidade.
O colorido pastel do longa de Yakuwa estabelece logo de cara um universo lúdico e particular, marcado pela inventividade que vai ao encontro da mente de sua protagonista, que acha na escola Tomoe Gakuen o cenário ideal para se expressar sem amarras, e encontra no diretor o aliado perfeito para sua aventura de amadurecer. É uma escola tão progressista que suas salas de aula são um vagão de trem.
Esse processo se deve, em boa parte, ao novo amigo Yasuake, um menino tímido e com pólio, que não brinca com as crianças por conta da fraqueza nas pernas e braços, e passa o tempo lendo. Totto-Chan não se conforma com isso e quer arrastá-lo para brincar com as outras crianças.
Tudo isso, é claro, é mostrado com o humor e melancolia que só as animações japonesas são capazes de criar. A escola Tomoe Gakuen é quase como um universo à parte, uma bolha de empatia e amizade num país cada vez mais militarizado e rígido, que obriga a escola a fechar quando entra na Segunda Guerra Mundial.
Transitando por territórios estéticos e temáticos que Hayao Miyazaki já abordou, Totto-Chan: A Menina na Janela, no entanto, não fica à sombra do mestre. Toca em temas caros à cinematografia japonesa, como a destruição causada pela guerra e, também, em questões e debates muito contemporâneos, como uma educação mais inclusiva e libertária que abrace as crianças neurodivergentes.
