Qualquer pessoa que foi criança ou adolescente no final dos anos de 1980 e 1990 sabe do lendário “último episódio” do desenho Caverna do Dragão. Um boato se espalhou pelo país dizendo que existia esse tal capítulo no qual diversas questões se resolviam, e o grupo de jovens personagens finalmente conseguia voltar para casa. Michael Reaves, roteirista da série, chegou a desmentir isso, mas pouco importa, a lenda sobreviveu.
O longa O Último Episódio, do mineiro Maurílio Martins, parte dessa história para investigar o amadurecimento de seu protagonista, na periferia de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, em 1991. É um olhar carinhoso e, em certa medida, nostálgico para um passado que, observado de agora, é pacato e gentil. Mas, para os personagens, há complicações em suas vidas que os levam a amadurecer.
Erik (Matheus Sampaio) é um adolescente apaixonado por Sheila (Lara Silva). Para a impressionar, diz que tem uma fita vinda dos EUA com o tal último episódio do desenho, mas sua mãe não deixa o cassete sair de casa. Por isso, se ela quer ver o desenho, precisa ir à casa dele. Surpreendentemente, a menina topa e agora ele mesmo precisa “filmar” o tal desenho.
A partir da situação, que funciona quase como uma anedota, Martins, que assina o roteiro com o produtor Thiago Macêdo Correia, observa um passado que reverbera ainda hoje, mostrando que as coisas mudam para continuar as mesmas. Se, por um lado, a adolescência de hoje abandonou o mundo analógico pelo digital, os sentimentos e as inseguranças permanecem, talvez, até potencializadas pela amplitude das redes sociais.
Com os amigos Cristiane (Tatiana Costa) e Cassinho (Daniel Victor), Erik pega uma antiga câmera herdada do pai para fazer o tal episódio. Daí nascem diversas questões que o filme trabalha de maneira cadenciada. Uma das principais é a complicada relação que o protagonista tem com a morte de seu pai, um roqueiro rebelde.
Martins que tem no currículo a direção de No Coração do Mundo (codirigido por Gabriel Martins), é um dos fundadores da produtora Filmes de Plástico, que, em poucos anos de existência, já deixou sua marca no cinema nacional com filmes como Marte Um e Temporada.
Em sua estreia na direção solo, o cineasta busca estabelecer um diálogo pautado pela delicadeza da memória coletiva e como isso marca a vida de um garoto. É o coletivo se transformando em pessoal, e vice-versa. Evidentemente, O Último Episódio é um filme distante da velocidade de No Coração do Mundo, é mais singelo e delicado em sua construção, e confirma o talento do diretor na construção de seus personagens.
