Praia do Silêncio, de Francisco Garcia, é um filme que se move por caminhos misteriosos. Sua recusa em facilitar a narrativa ou a trajetória para os personagens é sua maior virtude, que realça sua capacidade de apreender e compreender um país em transformação. Sua trama atravessa uns bons anos da história do Brasil, fazendo do pessoal, político.
O protagonista é André (André Gatti), um professor universitário aposentado, que resolveu abandonar o mundo e viver numa praia isolada. Ele deixa para trás mulher (Ana Abbott) e uma jovem filha com deficiência auditiva. A ex-esposa escreve cartas que dão conta não apenas de coisas pessoais da vida delas, mas também do Brasil. Como quando ela comenta que um professor universitário chegou à presidência – no caso, Fernando Henrique Cardoso, em 1995 – e, com ele, a expectativa de um país melhor.
Ledo engano. O processo de desmonte já ia a passos firmes naquela época e o filme (que estreou em festivais em 2022) reflete, basicamente, como aquilo, no pós-ditadura, deu nisso, a presidência de Jair Bolsonaro.
André é um personagem enigmático. Seria muito fácil colocar nele a etiqueta de esquerdomacho – o que não deixa de ser, afinal abandonou a mulher e filha, por se cansar da vida social e ir viver isolado. Prega melhores condições de vida coletiva, mas é incapaz de cuidar da filha, um pai ausente. Ao mesmo tempo, ele é um sintoma do mal-estar da esquerda que não sabe como lidar com as lutas do presente. É, dramaturgicamente, um personagem interessante – embora, na vida real, talvez nem tanto.
A narrativa toda é construída por meio de cartas trocadas por esse trio de personagens, o que permite dar-lhes voz própria e densidade ao expor seus sentimentos. Obviamente, a carta mais tocante é a da filha, mas toda a trajetória da jovem, conforme contada pela mãe ao pai, nos leva a ver como ela recebeu uma criação politizada, que a transformou em uma mulher ciente de seu lugar numa sociedade pautada pelas desigualdades.
Roteirizado pelo diretor e Gabriel Campos, Praia do Silêncio levanta perguntas ásperas – em especial, como chegamos até aqui? Não há respostas simples para isso, e nem é a intenção do longa dar uma palavra final sobre o tema. Mas, em sua sinuosidade, ajuda a jogar luz para compreender o país em que vivemos.
