02/07/2026
Drama

Praia do Silêncio

Frustrado com os fracassos, um professor universitário aposentado abandona tudo para viver isolado num trailer. As cartas que recebe da mãe de sua filha lhe dão notícias sobre elas e também sobre o Brasil. Mas um acontecimento volta a assombrá-lo.

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Praia do Silêncio, de Francisco Garcia, é um filme que se move por caminhos misteriosos. Sua recusa em facilitar a narrativa ou a trajetória para os personagens é sua maior virtude, que realça sua capacidade de apreender e compreender um país em transformação. Sua trama atravessa uns bons anos da história do Brasil, fazendo do pessoal, político. 

O protagonista é André (André Gatti), um professor universitário aposentado, que resolveu abandonar o mundo e viver numa praia isolada. Ele deixa para trás mulher (Ana Abbott) e uma jovem filha com deficiência auditiva. A ex-esposa escreve cartas que dão conta não apenas de coisas pessoais da vida delas, mas também do Brasil. Como quando ela comenta que um professor universitário chegou à presidência – no caso, Fernando Henrique Cardoso, em 1995 – e, com ele, a expectativa de um país melhor.

Ledo engano. O processo de desmonte já ia a passos firmes naquela época e o filme (que estreou em festivais em 2022) reflete, basicamente, como aquilo, no pós-ditadura, deu nisso, a presidência de Jair Bolsonaro.

André é um personagem enigmático. Seria muito fácil colocar nele a etiqueta de esquerdomacho – o que não deixa de ser, afinal abandonou a mulher e filha, por se cansar da vida social e ir viver isolado. Prega melhores condições de vida coletiva, mas é incapaz de cuidar da filha, um pai ausente. Ao mesmo tempo, ele é um sintoma do mal-estar da esquerda que não sabe como lidar com as lutas do presente. É, dramaturgicamente, um personagem interessante – embora, na vida real, talvez nem tanto. 

A narrativa toda é construída por meio de cartas trocadas por esse trio de personagens, o que permite dar-lhes voz própria e densidade ao expor seus sentimentos. Obviamente, a carta mais tocante é a da filha, mas toda a trajetória da jovem, conforme contada pela mãe ao pai, nos leva a ver como ela recebeu uma criação politizada, que a transformou em uma mulher ciente de seu lugar numa sociedade pautada pelas desigualdades. 

Roteirizado pelo diretor e Gabriel Campos, Praia do Silêncio levanta perguntas ásperas – em especial, como chegamos até aqui? Não há respostas simples para isso, e nem é a intenção do longa dar uma palavra final sobre o tema. Mas, em sua sinuosidade, ajuda a jogar luz para compreender o país em que vivemos. 

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