Vinte e cinco anos depois de sua estreia impactante, Amores Brutos está voltou às telas dos cinemas numa versão restaurada em 4K, agora chegando também ao streaming. Mais uma oportunidade de rever um filme que marcou o início da carreira do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, que comporia a santíssima trindade dos cineastas daquele país, ao lado de Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro.
Foi uma estreia com sangue, suor e gritos, numa eletricidade que garantiu ao filme o Grande Prêmio da Semana da Crítica de Cannes em 2000, de onde partiu para espalhar uma cauda de cometa que não pararia de iluminar a trajetória do cineasta, que tinha então 37 anos.
Quem viu o filme uma vez que seja, jamais pode esquecer seu início com uma espetacular perseguição que termina numa batida de carros, atando os destinos dos integrantes das três histórias que se entrelaçam no roteiro de Guillermo Arriaga - que seria parceiro do diretor em seus dois próximos filmes, 21 Gramas (2003) e Babel (2006). Um acidente que desencadeia os dramas que mantêm o espectador sempre tenso, compartilhando as angústias de personagens sempre no limite.
Homens e cães compartilham uma turbulenta via-crúcis nestas histórias, refletindo o intraduzível trocadilho contido no título original em espanhol, Amores Perros - e que remete a mundo-cão, delineando a atmosfera radical das paixões que movimentam as vidas de todos os personagens, compondo uma espécie de mosaico de um México marcado pela aguda desigualdade social, dela distraído por um mundo televisivo que alimenta seus mitos.
Aqui, o futuro astro Gael García Bernal viveria, aos 22 anos, seu primeiro grande papel no cinema, como Octavio, o jovem que vive uma paixão proibida pela cunhada Susana (Vanessa Bauche), maltratada por seu irmão Ramiro (Marco Pérez), sonhando fugir com a moça com o dinheiro que passa a acumular com as lutas protagonizadas por seu cachorro, o rottwiler Cofi.
O acidente muda drasticamente a vida da modelo Valeria (Goya Toledo), que acaba de iniciar uma nova vida ao lado de Daniel (Álvaro Guerrero), um executivo recém-divorciado. E também é presenciado pelo misterioso El Chivo (Emilio Echevarria), um carroceiro errante, sempre acompanhado por seus cachorros, e que esconde uma história pessoal atribulada.
Barroco e grandiloquente desde sua opera prima, Inárritu já assinala a estrada por onde irá seguir no futuro, imprimindo um tom visceral, carnal, aos seus enredos - numa pegada bem mais realista do que outro colega, seu conterrâneo e contemporâneo, o mais espiritual Carlos Reygadas. Bem num outro caminho, Inárritu injeta uma energia quase fatalista em suas criaturas, que chegam ao limite de seu livre arbítrio aparentemente sem poder escapar de seus desejos e culpas, esboçando um universo sem busca de redenção mas onde a pulsão é sempre seguir adiante, inexoravelmente.
Recuperada nesta versão restaurada, a fotografia assinada por Rodrigo Prieto inflama a tela de tons avermelhados, jorrando o sangue mais profundo destas escolhas, embaladas pela trilha sonora frenética do compositor argentino Gustavo Santaolalla.
