Vencedor em Gramado dos prêmios de direção, fotografia e melhor longa para a crítica, Nó, da diretora Laís Melo, fincou o pé num território feminino ao retratar os dilemas de Glória (Saravy), uma mulher trabalhadora que cria coragem de separar-se de um marido abusivo, encarando a responsabilidade pelas três filhas.
Trabalhando numa fábrica, Glória sofre a pressão deste marido, que a vigia - o carro dele é visto diariamente na porta do local de trabalho da ex-mulher até que ela chega -, bem como de seu próprio ambiente profissional, em que se abre a disputa para uma vaga de supervisora.
Trabalhando a partir de um roteiro assinado pela própria diretora, estreante em longas, e pela atriz protagonista, o filme constrói um espaço para a intimidade desta núcleo familiar, formado por Glória e as três filhas, buscando uma imagem respeitosa para esta mulher trabalhadora, dentro de uma proposta que a diretora, em Gramado, optou por definir por “estética da dignidade”- somando mais uma etapa na discussão que já é antiga dentro do cinema brasileiro, que parte da estética da fome empunhada por Glauber Rocha no Cinema Novo e passa pela acusação de “cosmética da fome”, feita pela pesquisadora Ivana Bentes ao filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund.
Importante como é essa discussão, pela forma como o cinema retrata seus personagens, o filme paranaense certamente oferece rotas para a identificação das mulheres, público preferencial assumido do longa, ao falar de violência sem ser explícito demais, embora deixando claro do que se trata.
Uma das escolhas representativas é não mostrar nunca o rosto desse marido, visto sempre dentro de seu carro, e cuja ausência numa audiência judicial demonstra à exaustão uma atitude de negação ao diálogo.
Embora trafegue majoritariamente numa via realista nessa jornada de sua protagonista, secundada por trajetórias de outros corpos divergentes, como da amiga trans (Fernanda Silva), Nó incorpora um toque de realismo mágico sob a forma de um nódulo no corpo de Glória, que muda de lugar e assume uma função simbólica da angústia que ela está engolindo para superar todas as situações deste seu momento de vida.
Nesse detalhe, assim como num retrato irônico do ambiente de trabalho, especialmente das dinâmicas do departamento de RH, o filme se aproxima de um universo retratado em obras da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas, como Trabalhar Cansa. Mas o registro de Laís Melo é outro, mais focado no feminino. Esta sua Glória é a representação de uma feminilidade acossada por um machismo tóxico e recorrendo à resiliência e à solidariedade para subsistir. Até que o nódulo rebente.
