Neste agudo drama francês, as irmãs e diretoras Delphine e Muriel Coulin abordam com muita propriedade o tema da infiltração da ideologia de extrema-direita numa família operária no nordeste da França.
O veterano Vincent Lindon - Copa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza - interpreta Pierre, um viúvo ferroviário especializado em manutenção, que criou sozinho seus dois filhos, hoje adultos, Fus (Benjamin Voisin) e Louis (Stefan Crepon). O caçula, Louis, está encaminhado aos estudos e entra na Sorbonne, em Paris. Mas Fus, o mais velho, está perdido. Aos 22 anos, ele não completou nem mesmo um curso técnico de metalurgia e sofre, como muitos de sua geração, pelo desemprego e a falta de utopia e projeto. Assim, torna-se presa fácil do aliciamento por grupos de extrema-direita, que despejam seu ressentimento sobre alvos predeterminados: refugiados, imigrantes, esquerdistas.
Outrora um ativo sindicalista, Pierre assusta-se com o engajamento do filho nesses atos de violência. E o filme elege como seu centro essa batalha, épica e ética, do pai para reatar o diálogo com o filho, que é emblemática como símbolo da disputa de corações e mentes que ocorre nas redes sociais em todo o mundo. É um filme sóbrio, denso, que integra o pessoal com o político com eficiência, além de ter um dos melhores elencos possíveis. Ao lado do veterano Lindon, Benjamin Voisin vem se mostrando um dos melhores atores da França.
Pelo tema e pelo estilo, Brincando com Fogo parece muito um filme que os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne ou Ken Loach poderiam ter feito, ancorado numa das angústias mais urgentes da contemporaneidade, na França ou em qualquer outro lugar. Que as diretoras francesas sejam bem-vindas neste cinema político que reflete na carne sobre o aqui e o agora.
