18/07/2026
Musical Drama

O Beijo da Mulher-Aranha

Na Argentina ditatorial dos anos 1970, o preso político Valentín Arregui divide uma cela com Luis Molina, um decorador de vitrines gay, condenado por atentado ao pudor. Os dois formam um vínculo improvável enquanto Molina reconta o enredo de um musical de Hollywood estrelado por sua diva favorita do cinema, Ingrid Luna. Na Amazon Prime Video para aluguel.

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Quarenta anos separam as duas versões cinematográficas do livro O Beijo da Mulher-Aranha, do autor argentino Manuel Puig - este, por sua vez, publicado em 1976. A primeira versão, a do argentino-brasileiro Hector Babenco, que deu um Oscar de melhor ator a William Hurt e apresentou Sonia Braga a Hollywood, era uma coprodução EUA/Brasil falada em inglês. A segunda, em 2025, dirigida pelo norte-americano Bill Condon, parte da adaptação do livro a um premiado musical da Broadway de 1993, com letras de Fred Ebb, música de John Kander e libreto de Terrence McNally.

Evidentemente, a nova versão tem espírito e temperatura muito diferentes do filme de Babenco. Até por ter nascido na Argentina, Babenco estava mais próximo do contexto político da história, no seu país recém-mergulhado numa ditadura militar, por isso a narrativa era mais carregada de tons sombrios. Não que o filme de 2025 traia este contexto. Ainda estamos na mesma época e local, numa cela de prisão, dividida pelo militante político Valentin Arregui (Diego Luna) e o vitrinista gay Luis Molina (Tonatiuh). O primeiro, um sério e empenhado preso político, que resiste a entregar os companheiros de militância, o segundo, prisioneiro por atentado ao pudor. 

Também se mantém a desconfiança que abala Arregui com este novo companheiro de cela, no qual suspeita de uma tentativa de traição - e que não é descabida. Molina está sendo realmente chantageado pelos dirigentes da prisão a aproximar-se de Arregui e arrancar dele alguma pista que leve aos outros integrantes de seu grupo.

Se o duelo entre estes personagens tão distintos se mantêm nos dois filmes, a representação da musa é muito diferente, até porque o filme de Condon parte do musical. Assim, a atriz mítica que povoa as histórias contadas por Molina a um a princípio desinteressado Arregui aqui é muito mais colorida e espalhafatosa: Ingrid Luna (Jennifer López), vive a personagem Aurora no filme favorito de Molina, em cujas sequências Molina se imagina atuando, cantando e dançando, assim como Arregui.

A sensualidade de Jennifer López é também, de outra ordem do que a de Sonia Braga, que interpretava uma musa muito mais misteriosa e sutil, Lenni Lemaison. Dentro do padrão dos musicais hollywoodianos, a atmosfera é toda muito mais artificial e carregada, contrastando com a miséria e a tristeza da prisão. De todo modo, La López dá conta de um modelo de personagem que tem a sua cara e não faz feio, independentemente das preferências que possamos ter quanto ao tipo de musa.

Tonatiuh, por sua vez, é a melhor surpresa do elenco, interpretando um personagem cheio de nuances e talvez das maiores contradições dentro do contexto da história - é dele e só dele um dilema moral sobre trair ou não este companheiro de cela que termina por conhecer melhor. Diego Luna acolhe bem o personagem atormentado do preso político que Molina vem injetar de alguns tons a mais em sua escala de humanidade.

 

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