Honey, Não! é o segundo longa de Ethan Coen sem a companhia do irmão, Joel, e essa ausência se faz sentir, especialmente na condução da trama e na construção dos personagens. As bizarrices estão para todo lado, mas nem sempre funciona, como acontecia nos trabalhos da dupla.
Honey, interpretada por Margaret Qualley, trabalha como detetive particular, o que poderia ter saído dos noir dos anos de 1950, se não fosse uma mulher queer do presente. Ela não é muito competente no trabalho e é muito sincera, chegando a ponto de tentar convencer um cliente em potencial a não contratá-la.
Qualley que, desde A Substância, tornou-se um nome ascendente no cinema, mostra, mais uma vez, suas qualidades como atriz e seu potencial de protagonista, dominando a cena com um olhar de ameaça, um semblante sexy ou uma tirada cômica – às vezes, tudo ao mesmo tempo. Não há dúvidas de que ela veio para ficar, e ainda vai ser gigante.
O filme, no entanto, raramente, está à sua altura. Algo de tarantinesco e retrô dominam o longa, que Coen escreveu e montou com sua mulher, Tricia Cooke – ela, uma mulher queer, que já contou, em entrevistas, que os dois vivem um casamento não tradicional. Todos os tiques de filme de detetive estão aqui com a inversão de que a protagonista é uma mulher queer. Essa identidade de gênero, aliás, gera alguns dos melhores momentos do longa. Um policial (Charlie Day) sempre a convida para sair, ao que ela sempre responde que gosta de mulheres. Mais do que insistência da parte dele, o que há é uma cegueira para as preferências de uma mulher. Ela acaba se envolvendo sexual e romanticamente com a policial MG (Aubrey Plaza),
Como em seu filme anterior, Garotas em Fuga, Coen expõe a hipocrisia do meio-oeste estadunidense e, dessa vez, por meio de uma igreja cujo reverendo Drew (Chris Evans) se aproveita das garotas fragilizadas que o procuram. Não é surpresa que ele também esteja envolvido em tráfico de drogas.
Tudo isso é conjugado de forma leve e pendendo para uma comicidade estranha, embora tente ser um filme sério. O timing cômico é assegurado pela presença de Qualley mas, no geral, Ethan parece ainda não ter se encontrado enquanto cineasta depois de sua separação do irmão mais velho.
