Uma das tendências na seleção do 78º Festival de Cannes foi os filmes de apocalipse - e o estado do mundo autoriza de sobra este sentimento.
Um deles, o drama norte-americano Eddington, de Ari Aster,capta uma das maiores neuroses dos EUA, transformando-as num quase épico de horror sobre uma loucura que une fixação por armas, incesto, negacionismo, proselitismo político num feixe que contamina inclusive a família e o ativismo.
Assim, compõe-se um mosaico que explora a incapacidade de encontrar uma saída, até porque o establishment mostra uma espantosa capacidade de reconstruir-se sobre as próprias cinzas, adotando um discurso pretensamente moderno que, no caso do filme, é a energia limpa.
Toda essa batalha se deflagra numa história ambientada em maio de 2020, em plena pandemia, a partir da rivalidade entre um prefeito populista em busca de reeleição, numa cidadezinha do Novo México, Ted Garcia (Pedro Pascal), e um xerife negacionista e recalcado, Joe Connor (Joaquin Phoenix). Desse rastilho de pólvora, nascem seitas, matam-se indígenas (que tanto já foram expropriados, começando por suas terras) e se alimenta o rancor dos afro-americanos, eternamente enquadrados como os suspeitos habituais para todas as culpas.
Diretor conhecido por Hereditário e Beau Tem Medo, Ari Aster exercita um tipo de horror social coalhado de extrema violência e em que todo o humor eventual é sombrio. Mesmo se não atinge uma reflexão tão aguda quanto Pecadores, de Ryan Coogler, até por ser bem mais caótico, certamente dá sua contribuição para refletir no que se tornou a América que há pouco reelegeu Donald Trump. No elenco, Emma Stone, Austin Butler, Micheal Ward e Deirdre O'Connell.
