Do fino atelier de Hong Sang-soo, não cessam de sair novas pérolas, umas de maior, outras de menor brilho. No caso deste O que a Natureza Te Conta, seu 33º filme, seria o primeiro caso, pelo requinte das observações que o diretor sul-coreano consegue extrair de situações aparentemente banais na vida de uma família de classe média.
O personagem central é Dongwa (Ha Seon-guk), um jovem aspirante a poeta que namora há 3 anos Junhee (Kang So-yi), mas ainda não foi apresentado a seus pais. O encontro desses pais acontece meio ao acaso, num dia em que ele a leva à casa deles, que fica nos arredores de Icheon. Uma bela e ampla propriedade numa montanha, cercada de árvores, o que chama a atenção de Dongwa.
Questões sócio-financeiras entram aos poucos em foco à medida que se dá este contato entre o rapaz e os pais da namorada, Oryeong (o habitué dos filmes do diretor Kwon Hae-hyo), e a mãe Choi (Jo Yun-hee). Nas conversas que finalmente acontecem na casa, inclusive em uma mesa de jantar, o fato de que Dongwa seja filho de um grande advogado mas leve uma vida despojada, contentando-se em sobreviver de vídeos de casamentos, vira o centro de um debate, para seu desconforto. Ele não quer falar disso e fica inquieto quando isso é constantemente lembrado pela irmã da namorada, Neunghee (Park Mi-so).
Afinal, esta visita tem o poder de desencadear algumas belas cenas no jardim criado na casa por Oryeong para sua mãe, que faleceu há pouco e ali morava, e também numa visita a um templo nos arredores em que o poeta sente-se inspirado a fazer anotações num caderno que sempre traz consigo. Mas também constitui um choque de realidade que o jovem poeta não está disposto a enfrentar, como se revela mais tarde, quando a bebida consumida em excesso à mesa libera sua censura para expor emoções incômodas.
Nos filmes de Sang-soo, os personagens sempre falam o tempo todo, inclusive quando evocam outras pessoas e fatos que não estão presentes - o diretor não é nada fã de flashbacks, preferindo acreditar no poder sugestivo das palavras de cada um.
Esse encontro em família também remete a um Woody Allen de bons velhos tempos do passado, ou de um Éric Rohmer de sempre, embora o acento seja totalmente oriental - a maneira como as conversas fluem segue um ritmo todo próprio dessa cultura a que pertencem. Ao mesmo tempo, parece haver uma intenção do próprio diretor, que acumula tantas funções em seus filmes (além da direção, produção, roteiro, fotografia, montagem, edição de som e música) em discutir os dilemas de quem se proponha a ser artista e queira viver de sua arte. Viver de poesia nos dias de hoje parece uma utopia numa sociedade que valoriza tanto o consumo - como fica claro nos comentários sobre o carro velho usado por Dongwa. Mas é este carro que, finalmente, torna-se um símbolo de tudo aquilo que o poeta tem que resolver para seguir adiante.
