Dez anos antes de seu cultuado clássico O Fantasma do Futuro (Ghost in the Shell), o diretor Mamoru Oshii criava este misterioso anime, que encanta com seu mistério 40 anos depois de seu lançamento, originalmente no formato OVA, para home video.
Relançado em versão remasterizada em 4K, Angel’s Egg continua desafiando as tentativas de sintetizá-lo ou decifrar suas simbologias, que passam tanto pela ficção científica quanto pela religião, num filme curto (71 min) e de escassos diálogos. A restauração, de todo modo, permite apreciar melhor um visual requintado em seus detalhes e ambientação - que combina tanto o ambiente gótico de uma floresta devastada por algum misterioso apocalipse (que hoje ganha uma imediata referência ambiental) quanto o de uma cidade vazia, de construções semelhantes às da Europa do século XIX.
Neste cenário desolado, em que a água é um elemento vital, serão vistos apenas dois personagens. Um deles, uma menina de cabelos longos e brancos, que coleciona obsessivamente frascos que enche de água e protege dedicadamente um grande ovo.
O outro personagem é um jovem, também de cabelos brancos, usando capa, botas e portando uma espécie de lança em formato de cruz, o que também incorpora inúmeras alusões.
A natureza e os objetivos destes dois personagens, num mundo desolado em que as figuras que se movem não passam de fantasmas - como aparentes pescadores, vestidos como soldados, que empunham lanças e procuram caçar imensos peixes voadores, que projetam suas sombras nas paredes das construções da cidade.
Os dois pouco falam e o rapaz se recusa a responder à insistente pergunta da menina: “Quem é você?”. Ao mesmo tempo, nega-se a atender ao pedido dela de que não a siga. Ela está sempre muito atenta e preocupada com este ovo, cujo conteúdo ela ou desconhece ou se recusa a revelar - o que desperta a curiosidade do rapaz, revelando suas memórias diluídas e também uma obsessão, sobre um sonho com um pássaro.
A água, este elemento aparentemente dominante e dono da própria vontade, estará sempre circulando sobre tudo, eventualmente cobrindo as construções e tornando-se ameaçadora. As referências são inúmeras e brotam com fartura, incluindo uma menção explícita à Arca de Noé. Mas os acontecimentos, nesta fantasia, criam sua própria lógica e encontram sentido apenas como sugestivos de um sonho sendo sonhado coletivamente.
Angel’s Egg pode ser lido como uma fábula mística, ou futurista, e seu encanto é provavelmente fornecer elementos para prestar-se a múltiplas sensações e interpretações - o que é proporcionado por seu visual requintado, que limita sua paleta de cores, e pelo uso eficiente da trilha sonora de Yoshihiro Kanno.
