Vai ser uma surpresa para quem se aproxima do documentário O Primeiro Beijo esperando histórias românticas ou algo parecido. O filme da cineasta baiana Urânia Munzanzu aborda a vida de mulheres negras em situação de dependência do uso de crack. O título vem da expressão dada para o primeiro contato com a droga por mulheres em Salvador.
Fruto de uma pesquisa de 14 anos, o filme de Urânia consegue que as entrevistadas se abram candidamente para a câmera, contando suas histórias. Podem não ser narrativas muito distintas daquelas já conhecidas, mas pulsam com sinceridade e servem como um alerta.
Há depoimentos de todos os tipos, da dependente que tenta abandonar o vício àquela que diz não ser dependente química, pois “fuma apenas à noite”, além de parentes dessas pessoas. “Quem é rico fica pobre, quem é pobre fica mendigo”, diz uma delas. Isso é algo bastante claro, como a droga serve como uma forma de exploração e extermínio de pessoas pobres.
Jornalista experiente, Urânia consegue a confiança de suas entrevistadas e sabe conduzir entrevistas de modo a encontrar o fundo da existência dessas mulheres, suas dores e seus sofrimentos sem transformar em espetáculo ou em algo sensacionalista. Esse é uma das grandes qualidades de O Primeiro Beijo, que conta com montagem de Thiago Gomes, que constrói as narrativas de forma sensível.
