Vencedora de um Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, a comédia dramática da diretora canadense Chloé Robichaud coloca em foco o desejo feminino de uma maneira ao mesmo tempo franca e informal.
Partindo de uma peça de Catherine Léger, aqui também a roteirista, e atualizando um filme de 1970 com a mesma temática (Entre Duas Mulheres, de Claude Fournier), Chloé coloca no centro da história duas donas-de-casa de subúrbio de Montreal insatisfeitas com sua vida sexual e dispostas a fazer algo a respeito.
Uma delas é Violette (Laurence Labeouf), vivendo a licença-maternidade de uma menininha, Emma (Rosie Beaudoin), e Florence (Karine Gonthier-Hyndman), mãe de um garoto de 10 anos, Max (Mateo Laurent Membreno Daigle). Elas são vizinhas e não têm muito em comum exceto essa sensação de que a vida está tediosa e sem nenhuma paixão. O marido de Violette, Benoît (Félix Moati), vive viajando e não pára em casa. O marido de Florence, David (Mani Soleymanlou), por sua vez, abriu mão da libido, não correspondendo às solicitações da mulher, que abandona os antidepressivos para retomar sua sexualidade.
Trocando confidências, as duas resolvem dar vazão às suas fantasias com os homens que frequentam suas casas, como exterminadores de pragas, entregadores e faxineiros - mesmo uma parceira mulher entra na roda.
Com toda a semelhança que compartilha com várias produções francesas, o filme canadense tem uma ironia peculiar, abrindo mão de qualquer moralismo com bastante humor e dando ênfase à busca libertária de suas protagonistas, por mais atabalhoada que às vezes esta se revele. Um detalhe positivo é que nenhum dos maridos é realmente um monstro. Ao humanizá-los, a diretora também os torna humanos, vulneráveis e não raro bastante engraçados na própria expressão de seus sentimentos e vontades. Benoît, por exemplo, tem uma amante (Juliette Gariépy), que é capaz de desmontá-lo numa das melhores cenas do filme com sua sinceridade desconcertante sobre achá-lo ao mesmo tempo feio e sexy. Bem mais travado, David não sabe o que fazer dos olhares insistentes de uma bela vizinha do condomínio, Jessica (Sophie Nélisse, de A Menina que Roubava Livros).
O imbróglio amoroso entre os casais tem ainda um toque ambiental, nas discussões do condomínio sobre construir ou não uma estufa num local destinado a estacionamento. Mas, de todas as maneiras, o filme não dispensa uma certa profundidade ao retratar as complicações de todo e qualquer relacionamento - e que, em um dado momento, terão que ter um momento de decisão.
