02/07/2026
Drama

Sonhos de Trem

Robert Grainier é um lenhador que fala pouco e vive feliz com sua mulher e filha pequena. Ele passa temporadas longe de casa, ajudando a construir estradas de ferro em diversas regiões. Sua vida passará por uma grande provação após uma tragédia. Na Netflix e nos cinemas.

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Raramente um filme e um ator se comprometem tanto e tão bem ao mostrar um trabalhador na tela. De estilizações a romantizações de homens comuns o cinema está cheio, mas Sonhos de Trem consegue a grande façanha de retratar de forma realista, sem abrir mão de poesia que encerra em suas imagens, na direção segura de Clint Bentley e na fotografia sofisticada do brasileiro Adolpho Veloso. 

Tudo isso é muito bem conjugado, mas não funcionaria tão bem não fosse a presença incendiariamente contida de Joel Edgerton, no papel do protagonista, o lenhador Robert Grainier. Em temporadas durante o ano, ele deixa sua mulher, Gladys, (Felicity Jones) para ir cortar lenha, ao lado de outros trabalhadores, produzindo o material usado na construção das estradas de ferro. 

A vida de Grainier é de alegrias, com o casamento com a mulher que ama e o nascimento da filha. Bentley e Veloso filmam isso de forma brilhante, como se a passagem do tempo fosse a força que domina o filme, alternando temporadas no bangalô onde vivem e na floresta longe da família, serrando grandes troncos. As árvores e as florestas são, ao mesmo tempo, fonte de sobrevivência, mas também fonte de receio. Não são poucos os homens que morrem durante o seu trabalho e acabam enterrados ao lado de árvores, nas quais suas botas são pregadas para dizer que ali jaz um lenhador. 

Partindo da novela de Denis Johnson, Bentley, que assina o roteiro com Greg Kwedar, constrói uma narrativa quase etérea, pontuada pela bela trilha de Bryce Dessner. São os pequenos momentos, enquanto trabalha, que passam na frente dos olhos de Grainier: da sabedoria de um ancião (William H. Macy) à vingança contra um pastor evangélico racista (Paul Schneider). Tudo molda a subjetividade do protagonista, mas nada o prepara para a grande tragédia de sua vida.

Há uma clara influência de Terrence Malick nesse filme, mas Bentley é dono de uma voz própria capaz de levantar seus voos sem se subjugar ao mestre, pelo contrário. O jovem cineasta injeta vigor numa fórmula estética copiada à exaustão. Toma para si uma gramática estética, que tem origem nos anos de 1970, transformando filosofia em imagens, e a revigora para os novos tempos. 

Sonhos de Trem, como mostram, em especial, as cenas finais, é um filme sobre o preço da modernidade. Não só geográfica, mas, também, econômica. Os EUA dependeram da força de trabalho e da vida de homens como Grainier, cuja vida interior, destituída de glamour, pouco interessa ao cinema, mas aqui, ganha um tom épico – um épico contido, é verdade, mas ainda assim, épico. 

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