02/07/2026
Drama

Cyclone

Conhecida como Cyclone, Dayse, uma jovem operária de origem humilde do interior de São Paulo, sonha em ser dramaturga. Para isso, pleiteia uma bolsa de estudos em Paris, mas uma gravidez inesperada coloca seus planos em risco. Nos cinemas.

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Os dois primeiros longas de Flávia Castro, o documentário Diário de uma Busca e a ficção Deslembro, são sobre experiências pessoais durante a ditadura – o desaparecimento de seu pai e o exílio de sua família, respectivamente. Em Cyclone, ela sai desse universo para fazer um filme histórico que respira com frescor seja em sua forma ou no resgate de uma figura feminina esquecida pela história. E o resultado é, como de costume na filmografia da diretora, excelente. 

Cyclone era um dos vários apelidos de Maria de Lourdes Castro Pontes, jovem filha de agricultores no interior de São Paulo. Ela se mudou para São Paulo, onde sonhava em ser dramaturga. Dasy/Daisy, como também era conhecida, esteve perto daqueles que foram figuras centrais no movimento modernista brasileiro e na Semana de Arte de 1922. Era a única mulher a frequentar a garçonnière de Oswald de Andrade, onde se discutia arte e política.

O filme, cuja ação se situa em 1919, inspira-se nos livros O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, um diário coletivo de artistas organizado por Oswald de Andrade, e Neve na Manhã de São Paulo, de José Roberto Walker, traçando um retrato imaginário dessa mulher misteriosa, interpretada por Luiza Mariani, que também é produtora do longa e gestou o projeto por anos. 

Cyclone vive um romance com o diretor de teatro Heitor Gamba (Eduardo Moscovis), figura livremente inspirada em Oswald de Andrade, e tenta uma bolsa de estudos em Paris. Mas uma gravidez inesperada coloca em risco seus planos. Funcionária de uma gráfica anarquista, ela transita entre esse mundo proletário e a elite intelectual do Teatro Municipal, tornando-a uma personagem que revela camadas da sociedade paulistana da época que ressoam até hoje. 

Transitando entre gêneros cinematográficos, o longa é também um ciclone em sua forma, arrastando tudo para si, olhando para o passado para falar do presente em sua capacidade de figuração de dilemas de mulheres sob o patriarcado que continuam ainda, como o direito sobre o próprio corpo, independência financeira e artística. 

Para isso, Castro evita tiques típicos de filmes de época que parecem cobertos por uma poeira do tempo. O vigor e atualidade do longa estão também na sua estética pós-punk, na fotografia impressionante de Heloísa Passos e na direção de arte de Lara Carmo. O passado aqui serve como uma moldura mas não um empecilho que amarra o longa, pelo contrário, o trânsito entre os tempos dá força a Cyclone, confirmando o talento da diretora – especialmente para histórias protagonizadas por mulheres –, e dá chance a Mariani a fazer uma atuação pautada pela força e sagacidade – uma das melhores atuações do ano. 

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