O documentário de Eduardo Boccaletti traça o percurso de um homem que fez e continua fazendo a si mesmo, o pianista e compositor mineiro Moisés Mattos. Nascido em Juiz de Fora, desde pequeno ele alimentava o sonho de dedicar-se à música. Mas, por sua origem humilde, parecia um projeto impossível para um menino cujo primeiro “piano” foi uma mesa de madeira do avô onde ele desenhou as teclas que sonhava tocar. Mais tarde, um velho piano, adquirido a custo, iniciou o contato com um instrumento real.
Boa parte da trajetória de Moisés foi, assim, autodidata e contando com a ajuda de protetores. Ele estudou clandestinamente no Conservatório Estadual de sua cidade, com a ajuda de um amigo e de funcionários que simpatizavam com seu idealismo. Ao longo dos anos, contou com outras ajudas, como a do professor André Pires, para cujas aulas o jovem precisava deslocar-se quilômetros a pé.
Quem o vê hoje, no início do filme, alternando percursos a pé, de ônibus e trem na Alemanha, em Bremen, onde ele mora e dá aulas, não imagina imediatamente a dureza do percurso que o trouxe até aqui, cujo final feliz é também bastante raro. Ajudado, no começo de sua estadia na Alemanha, pelo músico brasileiro Wado Barcellos, Moisés alcançou um bacharelado tardio, o que é raro na profissão, obtendo nota máxima. Agora, dedica-se ao mestrado.
Todo esse trajeto é narrado pelo filme em três atos,que intercalam os detalhes da vida pessoal e da profissional, destacando de modo sutil a batalha de um homem simples, comum, mas também incansável. Um último sonho, este mais singelo, era tocar em sua própria cidade, o que acaba acontecendo, no Cine-Theatro Central, diante de toda sua família, ampliando um círculo que, no entanto, está longe de se fechar.
