Numa chave sutil e intimista, a diretora francesa Valérie Donzelli desenvolve em Mãos à Obra a história de Paul (Bastien Bouillon), um ex-fotógrafo que largou a profissão para tornar-se escritor. Em seu terceiro livro, depois da separação da mulher e dos filhos, ele cai num certo bloqueio criativo e o resultado da primeira versão não agrada à editora (Virginie Ledoyen).
Pressionado pela necessidade de encontrar saídas e pela dificuldade financeira, Paul transforma-se num trabalhador precário, vendendo seu tempo numa plataforma que faz leilão para serviços diversos – da jardinagem a obras como pedreiro, ajudante de mudanças ou motorista de uber.
Esse mergulho num universo de trabalho aparentemente autônomo, mas que não reserva nenhuma garantia, leva a que Paul descubra um tipo de pobreza que comumente atinge refugiados, imigrantes ou pessoas sem estudo. Mas, no mundo atual, de empregos escassos, esse tipo de situação pode capturar também alguém como Paul, ainda mais porque ele insiste em tentar manter-se como escritor, recusando voltar à fotografia.
Bastien Bouillon carrega muito do filme nas costas, tornando-se o enviado a estas situações que retratam as brechas de uma sociedade em que esses trabalhadores invisíveis, contratados por leilão em plataformas online, transformam-se em agentes desorganizados de um mundo em que o trabalho tem cada vez menos valor, desumanizando os dois lados, já que o nível das relações humanas, nesse contexto, reduz-se assustadoramente.
Leia a entrevista com a diretora Valérie Donzelli
Leia a entrevista com o ator Bastien Bouillon
