18/07/2026
Comédia Drama

Sorry, Baby

Depois de um evento traumático, a vida de Agnes parece perder o rumo. Mas, com a ajuda de sua melhor amiga, ela se recusa a deixar que isso acabe com ela, e tenta aprender a lidar com a ferida do trauma.

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Estruturalmente, Sorry, Baby, escrito, dirigido e protagonizado pela comediante Eva Victor (indicada ao Globo de Ouro na categoria Melhor Atriz de Drama), aparenta ser uma coleção de contos interligados pela mesma protagonista – não à toa, os segmentos são separados por título, e a personagem, enquanto uma doutoranda no programa de literatura de uma universidade, estuda contos. Tudo isso, no entanto, não é mera gratuidade formalista, tem a ver com a forma como a psique da protagonista, Agnes, lida com o trauma. 

Estudante de literatura, ela divide uma pequena casa com sua melhor amiga, Lydie (Naomi Ackie), também doutoranda na mesma universidade. A amizade é longa, elas têm diversas coisas em comum, a ponto de trocar piadas internas ou a compreensão mútua com apenas uma troca de olhar. Por isso, é a Lydie a quem Agnes pede ajuda quando algo traumático acontece: um abuso de seu orientador, Preston Decker (Louis Cancelmi), na casa dele, onde ela foi discutir sua tese. 

A cena acontece fora de quadro, e acompanhamos apenas as consequências na vida de Agnes que tenta aprender a lidar com esse trauma, sem que este a defina. Como a narrativa (os segmentos) se dão fora da ordem cronológica, conhecemos a Agnes do presente, quando se tornou professora de meio-período nessa mesma universidade. Depois a acompanhamos em sua jornada após o evento traumático, na busca por ajuda médica, e a frustração, tristeza e medo de ter de lidar com um médico (Marc Carver) sem a menor empatia, que lida com um estupro de forma burocrática. 

Victor, como diretora, roteirista e atriz, é sagaz na construção de Agnes, em seu caminho para assimilar o trauma e compreender que deverá conviver com essa marca para sempre, mas recusando que ela domine sua vida. Não é fácil, nem simples, e há momentos de apatia e profunda melancolia, assim como outros de desespero e euforia. 

Lydie, mesmo depois de mudar-se para outra cidade, onde começa a vida com uma companheira e espera o filho das duas, é um consolo diante das grandes e pequenas aflições. Num jantar com antigos amigos, por exemplo, é ela quem segura a mão de Agnes em apoio quando vem à tona o nome do professor, uma memória desagradável que só elas duas sabem o porquê. 

Eventualmente, Agnes procura Lucas (Lucas Hedges), um vizinho com quem passa alguns momentos especiais, um amigo que pouco sabe dela, mas está ao seu lado e ajuda mais do que é capaz de compreender. Até mesmo a pequena gata Olga, encontrada na rua, faz parte da rede de apoio da protagonista em sua busca pela própria reconstrução. 

Victor constrói o filme de maneira lenta, dando tempo a que os fatos aconteçam e sejam absorvidos, também, pelo público. Uma cena na qual Agnes é convocada para um júri num tribunal é particularmente reveladora do tempo da personagem em sua compreensão de si mesma e do que passou. 

Sorry, Baby é um filme quase de silêncios que dizem muito, acumulando camadas e mais camadas da personagem mostrando sua complexidade e nuances. Outra cena que tem muito a dizer é uma aula sobre Lolita e uma discussão com um aluno (importante que seja um aluno, e não uma aluna nesse diálogo), na qual ela defende a possibilidade de múltiplas leituras e compreensão do romance de Vladmir Nabokov.

Victor é uma descoberta. Pouco conhecida, ela deixa uma marca como atriz, diretora e roteirista em seu longa de estreia, que é marcado pela sensibilidade e delicadeza com o trato do tema e das personagens. E a cena, fortemente emocional, quando o título do longa faz sentido, é de uma profundidade e sinceridade tocantes. 

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