02/07/2026
Drama

Livros Restantes

Ana Catarina quer mudar de vida, e, para isso, abandonará a Barra da Lagoa, em Florianópolis, onde viveu toda sua vida, para ir para Portugal. Antes disso, separou cinco livros e pretende devolvê-los para as pessoas que lhe deram de presente. Nos cinemas.

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A atriz Denise Fraga construiu sua carreira, em especial na televisão e cinema, com mulheres comuns e marcantes por isso mesmo. A série de quadros do Fantástico Retrato Falado (2000-2007), na qual ela interpretava, em pequenos curtas, histórias enviadas pelo público, é certamente um divisor de águas em sua carreira no audiovisual. Ana Catarina, protagonista de Livros Restantes, é mais uma dessas mulheres comuns com histórias incomuns.

Professora de literatura morando a vida toda no bairro de pescadores Barra da Lagoa, em Florianópolis, ela resolveu mudar-se para Portugal, e do alto de seus pouco mais de 50 anos, recomeçar uma nova vida longe da família e de seus amigos. É um desafio, mas também um sopro de liberdade na vida dessa mulher em quem parecem recair todos os problemas da família e amigos. Antes da viagem, sem previsão de retorno, ela separa cinco livros que quer “devolver” às pessoas que lhe deram de presente. 

Não são obras ao acaso, foram pessoas queridas em momentos de sua vida que lhe deram, e o reencontro mostra, algumas vezes, a dissonância entre o passado e o presente. Como é o caso da amiga que a presenteou com A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst, e hoje se tornou uma evangélica fervorosa que nem quer se encontrar com a mundana Ana Catarina. É uma sacada do filme colocar a amiga que deu um livro tão ousado ter se tornado fanática religiosa. E que a trama se situe em Santa Catarina, notoriamente, o estado mais conservador do país, esse lance narrativo diz muito. 

Há outros momentos que, novamente, batem de frente com o conservadorismo catarinense, quando um personagem casado e pai de família que, finalmente, assume sua homossexualidade e vai viver com o homem que ama. Ou, ainda, o confronto com um abusador cujo desenrolar pode, dentro do filme, pedir a suspensão do realismo, mas não deixa de ter uma conclusão catártica. 

Em sua tentativa de juntar passado e presente, Ana Catarina parece, muitas vezes, mais idealista do que pragmática. Ela espera que os amigos e amigas ainda continuem, de certa maneira, as mesmas pessoas, e se surpreende com o reencontro com aqueles com quem não tinha mais contato. 

O personagem mais pé-no-chão do filme é Carlos Henrique (interpretado pelo sempre excelente e operário padrão do cinema brasileiro Augusto Madeira), ex-marido de Ana Catarina, que também mora no bairro e lhe deu de presente, anos atrás, o livro Doutrina do Choque, da jornalista canadense Naomi Klein. Que essa seja a única obra de não-ficção na pilha restante da protagonista é mais revelador de Carlos Henrique do que dela. 

Escrito e dirigido por Marcia Paraiso, Livros Restantes, às vezes, parece embalar pequenas histórias demais, muitos temas, que nem sempre encontram a devida profundidade. Mas ganha pontos por tocar em questões progressistas dentro de um lugar tão reacionário, contando com a presença magnética de Fraga, que faz uma personagem que muito bem poderia ter mandado sua história para o quadro Retrato Falado

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