02/07/2026
Drama

Milonga

Rosa é viúva e solitária e esconde em sua vida um enorme drama. Ela vive confinada em sua casa até que reencontra uma amiga do passado, Margarita, e conhece Juan, um homem que veio comprar seu carro.

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Em seu longa de estreia, a diretora e roteirista uruguaia Laura González não perde de vista a economia dramática  e as bruscas reviravoltas, tanto da história quanto do tango, ritmo em que se inspira seu título, Milonga

Um grande feito da diretora está em não entregar rápido demais os detalhes de sua densa trama. No início, vê-se Rosa (Paulina Garcia), uma mulher que envia um pacote a uma prisão. Nada se sabe ainda sobre ela e sobre este destinatário. Mas logo se descobre que está ali o grande drama de uma vida solitária. 

Rosa mora sozinha, numa grande e confortável casa. Mas as portas e janelas sempre fechadas e a presença apenas de uma cachorrinha demonstram rapidamente um estado de quase confinamento. 

Estranhezas se somam, como quando Rosa vai ao encontro do neto, Sebas (Tomás Davilla), entregar-lhe um presente de aniversário, e sua nora, Alejandra (Clara Alonso), fala-lhe em monossílabos e sequer a convida a subir ao apartamento. 

Há um trauma entranhado na vida desta família, que a narrativa levará bastante tempo para desvelar. Tudo o que se vê é a introspecção de Rosa, fechada em sua casa. Até que um dia reencontra na rua uma velha amiga, Margarita (Laila Reyes Silberberg).

A amiga é o oposto de Rosa, extrovertida, radiante. E sabe a fundo a vida de Rosa, que conhece desde garota. Através dela, vai-se descobrindo um histórico de submissão dessa mulher, desde o pai até o marido, já falecidos, todos os dois autoritários. E, na ausência dos dois, Rosa não foi ainda capaz de criar uma nova vida, sem amarras. 

Desta submissão é que a história, afinal, quer falar, de como mulheres vítimas de abusos têm dificuldades de romper um círculo vicioso de violência que acaba arrastando os demais membros da família. 

Sem julgar sua protagonista, o filme vai apresentando seu quadro emocional, que também é abalado pela chegada de Juan (César Troncoso), um homem que vem comprar o carro anunciado por ela e abre uma brecha para uma amizade ou, quem sabe, um novo relacionamento.

O tango entra na vida de todos, já que Rosa era, antes, uma exímia dançarina, assim como a amiga Margarita, que encontrou um parceiro constante no não menos animado Paquito (Eduardo Da Paz). Juan, finalmente, também, gosta de dançar e abre-se caminho para um jogo.

Sutil, o filme caminha num ritmo realista,em que as expectativas de Rosa vão sendo postas à prova. O coração da história bate junto com ela, expondo suas esperanças e fraquezas, rumo a uma grande explosão final, que nada tem de redenção hollywoodiana. Milonga termina sendo mais duro do que se espera, afinal, nunca se esqueça que o tango é um ritmo trágico. Mas o filme tem em sua contenção e complexidade dois inegáveis pontos fortes.

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