Uma das atrizes francesas mais conhecidas da atualidade, Julie Delpy aventurou-se a dirigir filmes há alguns anos, e sua filmografia como cineasta é tão variada como quando atuando. Transitando entre gêneros, ela mostra uma versatilidade idêntica à sua escolha de personagens para interpretar. Vizinhos Bárbaros, sua nova empreitada em frente e atrás das câmeras, é uma comédia ácida sobre o estado das coisas, numa Europa aparentemente repleta de boa vontade, mas descortinando a hipocrisia.
Usando um estilo documental, assim revelando ainda mais da realidade, embora use ferramentas da ficção, o longa se passa numa pequena cidade, Paimpont, na qual os moradores resolvem aceitar uma família de refugiados ucranianos para receber subsídios do governo. Como os ucranianos estão em alta demanda na França, o local acaba tendo de aceitar uma família de sírios, o que não agrada a parte da comunidade, pelo fato de se tratarem de refugiados árabes.
Delpy lidera o elenco como Joëlle, uma professora de esquerda, que lidera a ação de receber os refugiados, mas que também fica um tanto balançada por não serem ucranianos, como preferiam. Os bárbaros do título, conforme se revela, não são exatamente os estrangeiros, mas parte dos moradores locais. Esses, por sua vez, são o estereótipo de franceses de uma região rural, preconceituosos e limitados.
Por outro lado, a família síria se mostra muito mais educada e mesmo com mais formação acadêmica do que os nativos – inclusive são capazes de se comunicar em francês, que aprenderam no campo de refugiados. Marwan (Ziad Bakri) é arquiteto, sua mulher, Louna (Dalia Naous), é uma designer gráfica, a cunhada dela é uma médica, e há ainda o pai de Louna e os dois filhos adolescentes.
Visando mostrar a boa vontade da cidade, uma câmera acompanha os refugiados, mas isso acaba sendo motivo de disputa. Num momento, quando há um pequeno incidente numa mercearia, e o produtor e Joëlle discutem, e ela solta: “Você nunca ouviu falar de Michael Moore?”, o que ressalta o caráter satírico do longa.
Mas nem tudo é humor. Vizinhos Bárbaros é o filme mais político de Delpy. Há momentos dramáticos em que a diretora, roteirista e atriz aponta para um futuro mais otimista de compreensão mútua e ajuda. E, embora ria dos franceses e suas limitações diante das boas ações, resta, no filme, uma genuína crença na possibilidade de um mundo melhor.
