Para um público estrangeiro, Transamazônia pode ter algo de revelador – como a aproximação entre missionários religiosos e povos indígenas – mas, para os brasileiros e brasileiras, o filme paira numa superficialidade, encantado com seu cenário amazônico e suas personagens sem se aprofundar nas dinâmicas de poder que advêm da religião.
Se o filme tem uma qualidade é, novamente, exaltar o talento da alemã Helena Zengel, que, anos atrás estourou como a protagonista de System Crasher. Aqui, numa personagem menos visceral, ela mostra um outro lado na sua performance contida e ambígua, como Rebecca Byrner, uma suposta jovem milagreira, que sobreviveu à queda de um avião na região, que matou sua mãe.
Encontrada pelo pai, o missionário estadunidense Lawrence (Jeremy Xido), ela é tomada como um sinal divino. Valendo-se da filha como estrela para seus sermões, ele funda uma igreja batista, que atrai pessoas indígenas e moradores locais, em busca de milagres. Rebecca é uma figura dúbia, pode não saber que está sendo usada, mas também pode realmente ser uma espécie de milagreira. Um trauma de infância parece impedi-la de compreender a si própria.
É só ao lado de jovens indígenas de sua faixa etária que ela começa a tentar entender a si mesma. O longa foi feito com a colaboração dos Assurini, que vivem na Terra Indígena Trocará, no Pará. Além de atuarem, também são creditados coletivamente como produtores associados.
Do lado dos personagens brasileiros, está Alves (Rômulo Braga, como sempre, excelente), funcionário importante de uma madeireira que desmata a floresta. Ele procura Rebecca, pedindo ajuda para curar sua mulher, que entrou num coma inexplicável, e promete que se a jovem a curar, ele interrompe a derrubada das árvores, que está causando os protestos da comunidade indígena local.
Dirigido pela sul-africana Pia Marais – que assina o roteiro com Willem Drost e Martin Rosefeldt –, o filme levanta questões importantes, mas não consegue se aprofundar nelas. Poderia haver aí algo de muito interessante e profundo sobre a influência do cristianismo sobre os povos indígenas ou sobre o desmatamento. Mas, por mais que a diretora adote um viés decolonial, ela não consegue superar as limitações de um olhar estrangeiro.
