O tema não é novo e surpreendemente real: no Japão, agências intermediam contatos de pessoas que desejam contratar outras que atuem como se fossem seus parentes ou outro personagem qualquer em situações como casamentos, funerais e outras ocasiões sociais. O assunto foi abordado na docuficção Uma História de Família, de Werner Herzog, exibido no Festival de Cannes 2019.
A diretora Hikari adota uma abordagem diferente, optando totalmente pela ficção e o melodrama ao retratar os dilemas do protagonista, Philllip (Brendan Fraser). Um norte-americano que vive no Japão há 7 anos, ele teve um primeiro sucesso ao estrelar uma campanha publicitária de um creme dental. Depois disso, radicou-se no país, dominando o idioma e acreditando poder manter uma carreira como ator de filmes e séries. Mas, passado o tempo, ele não alcançou o objetivo e agora luta para pagar as contas.
Nesse contexto, ele conhece uma dessas agências, comandada por Shinji (Takehiro Hira), que tem grande sucesso em “alugar” intérpretes para diversas situações pedidas pelos clientes. Superando sua hesitação inicial, Phillip acaba frequentando funerais e até passando-se pelo suposto noivo de uma moça que deseja esconder sua homossexualidade da família.
O caso desafiador surge quando ele é contratado para passar-se pelo pai de uma menina de 11 anos, Mia (a estreante Shannon Mahina Gorman), cuja mãe solteira (Shino Shinozaki) precisa apresentar um parceiro para poder matricular a filha numa escola de elite. Toda uma história é contada à menina para explicar a ausência desse pai agora ressurgido. A princípio, ela reage contra o desconhecido, mas o inesperado acontece e um vínculo afetivo começa a formar-se e não só por parte de Mia - Phillip também está se apegando à menina.
Outro desafio para Phillip surge em outra missão, em que ele deve fingir ser um suposto jornalista, supostamente escrevendo a biografia de um ator veterano, Kikuo (Akira Emoto), que está perdendo a memória para o Alzheimer. Quando Kikuo pede sua ajuda para uma viagem ao local de seu nascimento, Phillip é perigosamente tentado a embarcar numa aventura que pode levá-lo à cadeia.
Conhecida por filmes como sua estreia 37 Segundos (2019), premiada em Berlim, a diretora Hikari consegue um equilíbrio difícil numa história que tem um ponto de partida naturalmente polêmico, devido às sensibilidades envolvidas em situações que aparentemente deveriam ser totalmente controladas. Mas ela o consegue admitindo os aspectos questionáveis da atuação destas agências sem tornar o filme melodramático demais. Também conta com um intérprete dedicado em Brendan Fraser, a quem a maturidade parece estar fazendo bem, destituindo-o dos excessos de outros tempos.
