02/07/2026
Drama Filme de época

Living the Land

China, 1991. O menino Chuang, de 10 anos, mora com parentes no interior, numa comunidade rural. Seus pais e irmãos vivem na cidade, por conta de melhores condições de vida. Mas eles voltam, de tempos em tempos, para cerimônias como funerais e casamentos. Enquanto isso, a ênfase de uma China menos rural e mais urbana se afirma. No Sesc Digital até 10/05/2026.

post-ex_7

Vencedor do Urso de Prata 2025 em Berlim, o filme de Huo Meng captura um momento de transição na China a partir de uma aldeia rural, em 1991.

Através do olhar de um menino, Chuang (Wang Shang), de 10 anos, desenha-se toda a paisagem geográfica e humana que a história irá explorar. O garoto vive longe de seus pais, que foram buscar trabalho na cidade de Shenzhen, entregando-o aos cuidados da avó e da bisavó (Zhang Yanrong). 

O menino sente-se deslocado, não só pela distância dos pais e irmãos, mas também por não ter o mesmo sobrenome que o resto desta família (Li), o que alguns parentes não cessam de lembrar - detalhe que, por si só, comprova a persistência de mentalidades arcaicas, mesmo mais de 40 anos após a revolução comunista.

A revolução se faz presente sobretudo na administração local da aldeia, organizando o trabalho agrícola, exigindo dos camponeses uma meta de produção que será destinada também, em parte, para custear a escola das crianças - cuja mensalidade equivale a 10 kg de trigo por aluno, o que pode ser desafiador quando as condições climáticas se mostram inclementes. O trabalho rural é duríssimo, exaustivo, manual e dependente dos caprichos do clima. 

As relações familiares e sociais igualmente se mostram conservadoras, especialmente em relação às mulheres. A bisavó se recorda que não tinha um primeiro nome, sendo conhecida apenas como “Terceira Filha”. Gerações depois, as mulheres têm nomes, mas não muito maior autonomia. Xiuying (Zhang Chuwen), a jovem tia do menino Chuang e sua figura maternal mais próxima, está sendo pressionada pela família a um casamento de conveniência com um destacado funcionário do Partido, o que ela não deseja, mas tem pouca condição de resistir. 

Roteirizado também pelo diretor, o filme evolui com lentidão e delicadeza por situações como funerais e casamentos, que são igualmente uma mostra viva de onde a China milenar resiste, em seus costumes e rituais. Desdobrando dramas de vários personagens da comunidade, enfatiza-se como as emoções são reprimidas num contexto em que o bem comum está acima de tudo, o bem da família, da comunidade e, finalmente, do país. Não sobra espaço, portanto, para muita expressão individual.

A passagem do tempo e o progresso tecnológico, afinal, são inexoráveis. A mecanização da lavoura avança, o governo federal procura petróleo na região, antes dominada pelo cultivo do trigo. Os mais velhos morrem e não mais são enterrados em seus campos: agora há um crematório. Sob os olhos de Chuang, há um país que se modifica rapidamente, embora nem tudo avance sem tropeços - a sequência final, em que a carroça que leva a urna com as cinzas da bisavó encalha na lama de uma estrada após a nevasca é um signo poderoso deste impasse à procura de outras saídas.

post