Dissecando mais uma vez as entranhas do autoritarismo, o cineasta Sergei Loznitsa realizou em Dois Procuradores a sua terceira passagem por Cannes, concorrendo a uma Palma de Ouro. Coincidentemente, esta é também a terceira ficção do documentarista bielorusso-ucraniano, seguindo Minha Felicidade (2010) e Na Neblina (2012), igualmente concorrentes em Cannes.
Adaptando romance do cientista Gyorgy Demidov, um sobrevivente do Gulag e perseguido político até sua morte, em 1980, Loznitsa retrata a jornada heroica de um jovem procurador recém-nomeado, Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), que, recebendo um bilhete clandestino proveniente de uma prisão, busca, em plena vigência do estalinismo, em 1937, interceder pelos direitos humanos de um velho prisioneiro político, Stepniak (Aleksandr Fillipenko) - que, além do mais, denunciou a ação da NKVD, o serviço secreto do regime, por estar massacrando os militantes mais autênticos do Partido Comunista, prendendo-os e torturando-os sob falsas acusações de conspiração, no auge dos expurgos estalinistas.
Kornyev é um personagem fascinante, na medida em que é visivelmente inteligente e idealista - embora talvez não suficientemente prudente para seu próprio bem. O filme retrata seu enfrentamento contra uma realidade rígida e cruelmente estratificada, simbolizada por ambientes como a prisão política de Bryansk e o prédio governamental em Moscou onde se localiza o escritório do procurador-geral, Vichinsky (Anatoly Beliy) - a quem o jovem procurador recorre, acreditando que poderá interferir na situação que denuncia.
Do ponto de vista formal, o filme se estrutura quase como uma peça de teatro do absurdo. Pode-se pensar imediatamente em Nikolai Gogol nessas esperas longuíssimas de Kornyev nas antessalas das autoridades que procura, autoridades essas, especialmente na prisão, que se mostram cínicas, preguiçosas, omissas e hipócritas no mais alto grau. É a deterioração desse Estado autoritário que Loznitsa, evidentemente, procura expor, lançando indícios para que o filme de época funcione como um ponto de reflexão sobre situações dos dias de hoje. Afinal, autocratas não mudam tanto assim de repertório.
A perícia do diretor de fotografia Oleg Mutu e do montador Danielius Kokanauskis é crucial para o retrato de um período e de um país em que todos os elementos evocam uma prisão, ainda que algumas sequências se passem fora dela. Fazendo jus à sua formação em matemática e experiência anterior como cientista, Loznitsa revela-se, mais uma vez, cirúrgico, preciso e contundente em seu relato.
